sábado, 21 de abril de 2012

Fernando Lemos morreu. Viva Fernando Lemos.

         Que tristeza. Eu soube que Fernando Lemos estava doente num dia; no outro, eu li a notícia de sua morte.
     
Eu me lembro perfeitamente do dia em que conheci Fernando Lemos: em 1975, ele, mais gordinho, cabelos grandes nos ombros, que ele insistentemente colocava atrás da orelha, entrou na redação do Correio Braziliense, trazido por Oliveira Bastos.
   Fernando (ou Baby ou Fernando Sardinha) tinha recém-chegado de Londres e Oliveira Bastos acabava de aterrissar no Correio Braziliense, explodindo feito bomba e subvertendo aquele ambiente pachorrento e pacato da redação.
     Eu estava começando na profissão, tinha arranjado um emprego de copydesk (
meu Deus, eu não sabia nem o que era 'quatro de onze' - título de quatro colunas e onze toques). Oliveira Bastos decretou uma semana depois de assumir a chefia da redação:" Você é repórter!".
     Entre uma reportagem e outra, virei 'assistente' de Fernando Lemos no Anexo, um encarte dominical do CB, (contra)cultural, irônico-sarcástico e debochado, que era sempre ameaçado de não sair: os "ômi' não gostavam.
     Anexo tinha de tudo, misturava poetas maiores (Rimbaud, Baudelaire), poetas-piada, foto-poemas, textos maravilhosos de J.O. Meira Penna, entrevistas com Jorge Luis Borges, cartuns e, reportagens minhas. (Em 1976, um ano depois de conhecer e trabalhar com Fernando Lemos, eu saí do Correio; tinha recebido e aceitado o convite para trabalhar no Jornal de Brasília.) Foi bom enquanto durou. Muito divertido. Neste ano juntos, Fernando e eu nos tornamos amigos.
     Foi em companhia de Fernando Lemos que eu ouvi o então ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen, cantar óperas, depois de um jantar e muitas taças de vinho, em sua mansão no Lago Sul. Os convidados para o jantar eram Oliveira Bastos, 
 Fernando Lemos e Edison Lobão, hoje ministro das Minas e Energia e na época colunista político do CB.
     Na verdade, eu esta lá porque Oliveira Bastos gostava muito mim. Ele costumava dizer que eu o tinha enganado, escondendo que eu era repórter.
    (Foi assim. Num sábado, uma emergência: não tinha ninguém para ir à Ilha do Bananal com o presidente da Funai, numa visita à aldeia carajá, no Parque Nacional do Xingu. Ida e volta no mesmo dia. Eu fui escalada. Quando voltei, Oliveira Bastos pediu a matéria para ler. Na segunda-feira, quando eu entrei na redação, Oliveira Bastos gritou lá do fundo:"Mírian Macedo, quem disse que tu és copidesk?" Eu gelei, estava despedida. E na frente de todo mundo! Então, Oliveira Bastos completou: "Li tua matéria, tu és repórter". Foi o maior elogio que eu recebi.)

     Fernando Lemos e Oliveira Bastos foram os responsáveis pela vinda de Gláuber Rocha para Brasília em 77 e foi no Correio Braziliense que o cineasta escreveu seus textos cheio de 'y' e 'z' (é desta época a famosa carta/artigo que Glauber manda para Zuenir Ventura,na Isto É, em que o cineasta elogia Geisel e apóia a abertura lenta, gradual e segura).
     Entre 77 e 79, Fernando Lemos e Oliveira Bastos acolheram todas as iniciativas de Gláuber em Brasilia (discursou, como metralhadora giratória, nas tardes do Clube de Imprensa para uma platéia muda e extasiada, eu incluída, filmou a Idade da Terra, tumultuou o Festival de Brasília, escreveu artigos cheios de 'y' ("uma brincadeira lingüística com o vanguardismo dos anos 20, num estilo tropicalista e na direção da língua tupi, para chamar a atenção de um povo que não lê" ) e quase morreu de sérias complicações de saúde, chegando a ficar internado no Hospital das Forças Armadas). 

     Tempos depois, Fernando Lemos patrocinaria outra personagem, desta vez uma figura folclórica e medíocre, mas que faz o estilo de Brasília e encanta a mentalidade tacanha e irresponsável de grande parte de seus jornalistas: um tal Raul de Xangô, que se orgulhava do epíteto "O Bruxo".
     A criatura fazia sucesso entre os jornalistas. Raul estava sempre entre repórteres, fotógrafos e editores  nas mesas de bares e resturantes e era incensado principalmente pelo Correio Braziliense. Raul de Xangô era guru dos jornalista e dos poderosos de Brasília.
     Mas a fachada de 'bruxo folclórico' escondia um outro Raul que, a levar a sério as suas próprias palavras, é diabólico e frequentador dos mundos inferiores. É dele a frase: "Acham que eu tenho pacto com o diabo. Não, não tenho. Eu só tenho acesso e intimidade'. E ria.
     As festas que o 'bruxo' realizava em sítios nas proximidades de Brasília, em que se ouviam atabaques, santo baixando e despachos, eram freqüentadas por políticos, pela alta burocracia e pela nata do jornalismo. A mim, dava engulhos.
 Certo dia, Raul de Xangô, se insinuou, pretensioso: "Você é muito tenra" (não é erro de digitação, é 'tenra' mesmo). 
     Desde que vim para São Paulo, em 81, nunca mais encontrei Fernando Lemos. Recentemente, eu descobri seu perfil no Facebook, mas preferi não fazer contato. Pensei: "ele não vai achar nada de interessante no meu novo modo de ser: não sou devota de Mãe Gaia e virei anticomunista, conservadora".
     Certamente, para Fernando, eu seria 'direita'. É assim que meus amigos de Brasília me identificam agora. Fazer o quê? É verdade. Eu sou direita.
    Saudades, meu amigo. Mereces o céu.

6 comentários:

  1. Lindo e emocionante texto, querida Mírian. Beijos

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    1. Clara, sei proprio carina. Che Dio te benedica.

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  2. Respeito suas convicções religiosas, políticas ou seja lá as que forem, mas respeite as pessoas também. Suas opiniões sobre Raul de Xangô são ofensivas, grosseiras, desabonadoras e absolutamente desnecessárias. Raul de Xangô é uma pessoa do bem que nunca fez mal a ninguém e sempre ajudou o Fernando Lemos. Devagar com o andor, maluca.

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    1. Moacir, é sintomático e indicador da influência nefasta destes gurus sobre a capacidade de discernimento de seus seguidores que tu tenhas te preocupado antes em defender Raul de Xangô de ofensas que eu não cometi que prantear e denunciar as condições dramáticas e inaceitáveis que cercaram a morte de Fernando Lemos. Ele não merece isto.

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  3. Ai Moa, que jeito chato de se posicionar. Podemos falar tudo com a devida educação. Abraços. Clara

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    1. Clara, amiga sempre solar e transparente. Grata pelas palavras corajosas. Deus te abençoe.

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