sábado, 17 de maio de 2014

Conselho de Olavo

       Olavo de Carvalho perdeu o senso da realidade. O meio milhão de agentes da KGB é só um exemplo emblemático da sua falta de compromisso com a seriedade. 

       Basta parar e pensar: quem cometeu a 'hipérbole' sobre os 500 mil agentes é a mesma pessoa que orienta alunos "a estudar mais que seu professor (esquerdista) para desmascará-lo sem dó nem piedade".

       Agora, imagina alguém saído do colégio, recém-chegado à universidade, sendo 'obrigado' a desafiar e derrotar intelectualmente um professor que ele ouviu dizer que é 'esquerdista', fazê-lo calar a boca, humilhá-lo e até mesmo processá-lo em caso de perseguição! 


      "Se você o desmascara, ele fica com medo e começa a puxar seu saco. Mas, se ele vai te ferrar, é melhor deixar claro que existe um conflito, porque se ele fizer algo contra você você pode até processá-lo. Se você disser 'eu desmascarei este cara nesta aula, nesta outra, nesta outra, provei que ele era um incompetente e ele está me sacaneando', você entra com um mandato de segurança e o cara se ferra todo". Não diga, Olavo? 


       Este conselho (irresponsável e estúpido por si só) Olavo repetiu mais uma vez no hangout com Kim Kataguri, à pergunta do entrevistador (ele mesmo um 'calouro') sobre a atitude que um aluno deve ter perante um professor esquerdista. 

       Naturalmente, Olavo não desconhece que aprendizado é um processo que exige tempo. É preciso passar pela fase da aquisição de conhecimento, absorção, fixação e compreensão, estabelecimento de relações com outras áreas do saber etc. Ou Olavo não sabe que um aluno, para identificar o viés ideológico de um discurso, precisa conhecer o conteúdo deste discurso? 

       Mais: que o aluno terá que conhecer os contra-argumentos que irão 'calar e humilhar o professor'? Ou seja, este aluno não precisaria entrar numa universidade, para estudar e aprender, pois ele já teria de saber tudo. 

         Mas o pior é a estimulação contraditória do Mestre: todo aluno seu é orientado a não abrir a boca durante anos, submetendo-se a uma rigorosa dieta de (ausência de) opiniões e manifestações falantes. O seu exemplo paradigmático é Aristóteles que, durante 20 anos, foi aluno de Platão. Só ao fim destas duas décadas de aprendizado é que Aristóteles começou a falar com sua própria voz.

       Afinal, é para o aluno sair desmascarando farsantes esquerdistas ou é para ficar calado?!


PS: Segundo Adriano Martinho Correia da Silva, " Aristóteles escreveu diálogos enquanto estava na Academia. Isso aparece no livro de Jaeger sobre o desenvolvimento do aristotelismo."

Um comentário:

  1. É muito fácil humilhar professores esquerdistas das faculdades hoje em dia. Caso haja algum que mesmo sendo comunista tenha mais conteúdo que você... então você para e anota tudo que ele diz e vai pesquisar conversa com pessoas mais inteligentes que você. Não vejo menor contradição nisso.

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