






Adhemar Ferreira da Silva
"A dois saltos da eternidade"por Cintia Rabaçal *

Portal – Como sr. vê a condição dos afrodescendentes no Brasil?
Adhemar – Olha, vocês não vão gostar, mas eu não tenho nada a ver com afro-brasileiros.
Portal – O sr. não se considera um afrodescendente?
Adhemar – Eu não. Eu sou brasileiro! Não tenho nada com África. Nada, nada, nada com África. E digo sinceramente porquê. Estive três anos na Nigéria, e em nenhum momento eu ouvi os nigerianos falando em afro-brasileirismo, ou Brasil/África, ou qualquer coisa assim. Eles jamais ligaram para a nossa existência. Portanto eu não tenho nada a ver com eles.
Portal – É verdade que o sr. é rejeitado pelos movimentos afro-brasileiros, tanto pelas alas extremistas, quanto pelos mais moderados?Adhemar – Eu não sei, mas acredito que sim, porque por duas vezes eu fui candidato a deputado e não recebi apoio nenhum, mas nenhum, de negros; só recebi dos brancos. Então eu não sei o que acontece, se sou rejeitado. E se sou, também estou pouco ligando para isso.
Portal – Para o sr. isso não é importante?Adhemar – Para mim não, não é. Nada, nada importante. Na verdade eu sempre fui, sim, rejeitado pelos negros. E isso eu acho que é uma burrice, uma ingenuidade, uma falta de educação, falta de tudo. Porque quando dizem que eu só procurei os brancos, ora, eu entrei para o esporte, num clube de brancos! Não existiam clubes de negros! E todas as vezes em que eu recebi algum tipo de auxílio, seja para o estudo ou para o esporte, eu recebi dos brancos. Então eu não vejo porque teria de ser rejeitado. Isso me entristece muito, mas muito mesmo. E não só por mim! Eu vejo pela minha filha, também (que é cantora, além de ser jornalista). Em todos os shows dela a platéia está lotada, mas de brancos, seja o espetáculo pago ou gratuito. Quer dizer, o negro não dá suporte ao negro, essa é a verdade. Do contrário nós estaríamos em melhores condições, poderíamos ser como os negros americanos. Mas acho que o negro brasileiro não sofreu o bastante, só fica preso àquela questão de senzala.
Portal – Quais as diferenças entre os negros brasileiros e os americanos?Adhemar – Bem, graças a um Lincoln, que abriu quatro escolas um dia depois da abolição da escravatura nos Estados Unidos, os negros tiveram condições de estudar e galgar postos na vida norte-americana. Hoje há um grande número de médicos, advogados, almirantes, brigadeiros, enfim, os negros americanos ganharam condições. E são unidos, ganham força com isso. Porque quando não conseguem melhores condições de trabalho, eles formam suas próprias empresas, até universidades. Agora, o negro brasileiro jamais se uniu para poder fazer qualquer coisa em torno de si mesmo. Por falta do dinheiro, o número de negros nas universidades brasileiras, públicas ou particulares, é sempre muito pequeno, uma minoria. E ninguém se une para nada. Só ficam gritando nas ruas "nós, os negros; nós, os negros". Isso não leva a nada.



Entrevista completa, concedida por Adhemar Ferreira da Silva em dezembro de 2000, poucos dias antes de morrer, no dia 12 de janeiro de 2001), no link: http://www.portalafro.com.br/entrevistas/adhemar/entrevista.htm


