quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Bobagens sobre índio.


    
    A noção rudimentar de que, até o Descobrimento, os índios viviam na Terra Brasilis como se fossem Adão e Eva no Éden, antes da Queda, e que a vida era tal qual o filme Pocahontas, dos estúdios Disney, carece só de um pouco de leitura.

    O que havia aqui antes - e depois - de 1500 era a história humana em sua plenitude. Índio é ser humano. Muitas tribos que habitavam o território brasileiro há milhares de anos já não existiam quando aqui chegaram os primeiros colonizadores. 

    Elas simplemente desapareceram e a explicação para a extinção de etnias inteiras foram as guerras tribais, disputas por território, guerras de extermínio, domínio de uma tribo sobre a outra, escravização etc. Tudo isto aconteceu, ao lado e dentro de culturas material e ideologicamente sofisticadas, com organização social, política e religiosa desenvolvidas.

    A propósito dos índios do Mato Grosso, nestes tempos de tanto 'guarani-kaiowá de butique, cabe referência a Darcy Ribeiro em seu livro "Os índios e a civilização - A integração das populações indígenas no Brasil moderno". Diz o antropólogo:

    "Já antes dos primeiros contatos com os brancos, os grupos guaykuru manifestavam tendências para o domínio de outras tribos de caçadores e coletores e sobre os lavradores guaná. Estas tendências iriam crescer nos séculos seguintes, graças à adoção do cavalo e seu uso na caça e na guerra"

    O cavalo, introduzido pelos espanhóis, foi utilizado pelos guaykuru como montaria e como arma de guerra, através da qual puderam entrar em contato com tribos distantes e lhes impor vassalagem. Os Mbayá-Guaykuru atacavam e saqueavam não somente grupos indígenas, mas também povoados espanhóis e portugueses, e missões jesuítas, fazendo cativos em todos eles.

    Uma das fontes de crescimentno destes índios era o preamento (captura e 'domesticação' de crianças). Os guaykuru, por vezes, se aliavam aos espanhóis contra os portugueses; noutro momento, tornavam-se aliados de portugueses, contra os espanhóis.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Corção: vítima do Pasquim


    Os 'iluminados' do Pasquim vão ter que prestar contas no Juízo Final: milhares de pessoas deixaram de se interessar e conhecer Gustavo Corção pela campanha infamante e difamante que o jornal fez sistematicamente contra ele.

    Eu mesma fui uma das pessoas que usavam o nome de Gustavo Corção para referir-se a mentes obscurantistas, retrógadas e nefastas. Isto sem ter lido uma única linha produzida por este brilhante intelectual e escritor. 

   Quando fui lê-lo, tive vontande de me atirar ao precípio. De vergonha pelo que fiz e disse no passado sobre Corção.

Miséria dá lucro? Bobagem, Jabor.



     "A miséria não acaba porque dá lucro"? Isto é bobagem. Miseráveis não compram, nada consomem, poluem nascentes de rios próximas de áreas invadidas , promovem desertificação pelo uso errado das florestas, dependem de dinheiro público da assistência social e saúde pública e por aí vai. 

     Marx falou besteira quando dividiu os homens em burgueses ricos (que se apropriavam do lucro) e proletários miseráveis ( de quem era tirada a mais-valia pela oferta a preços aviltantes da força de trabalho).

     Ele esqueceu de incluir aí os consumidores, aqueles que consomem os bens produzidos pelos trabalhadores e que garantem o lucro dos donos das fábricas.

     Se os ricos são uma parcela ínfima da população, não conseguem consumir tudo o que é produzido. Se ficam ricos pelo fato dos produtos todos serem vendidos, quem os compra não pode ser um miserável que mal come. 

     E aí? Cadê a máxima de que o capitalismo gera meia dúzia de ricos e milhões de explorados? Lorota, vigarice, desonestidade e burrice de Karl Marx.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Darcy Ribeiro: brasileiro é(ra) ninguém

      Darcy Ribeiro expõe com raro brilho o que é o brasileiro, no seu livro "O Povo Brasileiro - a formação e o sentido do Brasil". O capítulo 'Os brasileiros' é primoroso:


O Povo Brasileiro

Darcy Ribeiro

OS BRASILEIROS

O processo de formação dos povos americanos tem especificidades que desafiam a explicação. Por que alguns deles, até mais pobres na etapa colonial, progrediram aceleradamente, integrando-se de forma dinâmica e eficaz na revolução industrial, enquanto outros se atrasaram e ainda se esforçam por modernizar-se? Evidentemente, os povos transplantados, cuja identidade étnica já veio perfeitamente definida da Europa, encontram em sua própria configuração facilidades de incorporar-se a uma nova civilização surgida no seio de suas matrizes. Outro é o caso de povos que estavam se fazendo como uma configuração totalmente diferente de suas matrizes, que enfrentava a tarefa de difundir os povos que reuniu, tão diversos uns dos outros.
É tarefa sua, inclusive, definir sua identidade étnica, a qual não pode ser a de meros europeus de ultramar.
Outra argüição posta pela história é sobre a causa da uniformidade lingüística dos povos americanos. Tanto no norte como no sul, as línguas que se falam em imensos territórios, por milhões de pessoas, são as mesmas - o inglês, o espanhol, o português -, que nem apresentam dialetos. Como nada disso ocorreu em nenhum outro lugar da terra, cumpre indagar como se deu aqui.
O nome Brazil geralmente identificado com o pau-de-tinta é na verdade muito mais antigo. Velhas cartas e lendas do mar oceano traziam registros de uma ilha Brasil referida provavelmente por pescadores ibéricos que andavam à cata de bacalhau (cf.
Gandia 1929 ). Mas ele foi quase imediatamente referido à nova terra, ainda que o governo português quisesse lhe dar no mes pios, que não pegaram. Os mapas mais antigos da costa já a registram como "brasileira" e os filhos da terra foram, também, desde logo chamados "brasileiros". Entretanto, o uso do nome -- Página 127 como gentílico, que um povo atribua a si mesmo, só surgiria muito depois.
O gentílico se implanta quando se torna necessário denominar diferencialmente os primeiros núcleos neobrasileiros, formados sobretudo de brasilíndios e afro- brasileiros, quando começou a plasmar-se a configuração histórico-cultural nova, que envolveu seus componentes em um mundo não apenas diferente, mas oposto ao do índio, ao do português e ao do negro.
A consciência plena dessa oposição só seria alcançada muito mais tarde, mas a percepção dos antagonismos e diferenças se dá desde as primeiras décadas. Revela-se na prevenção do nativo com relação ao metropolitano e, como contrapartida, no desprezo deste pela gente da terra. Evidencia-se na perplexidade do missionário que, em vez de famílias compostas de acordo com o padrão europeu, depara no Brasil com verdadeiros criatórios de mestiços, gerados pelo pai branco em suas múltiplas mulheres índias. Denota-se, na inquietação do funcionário real que, dois séculos após a descoberta do Brasil, se pergunta se um dia chegará aquela multidão mestiça, se entendendo em tupi-guarani, a falar português.
É bem provável que o brasileiro comece a surgir e a reconhecer-se a si próprio mais pela percepção de estranheza que provocava no lusitano, do que por sua identificação como membro das comunidades socioculturais novas, porventura também porque desejoso de remarcar sua diferença e superioridade frente aos indígenas.
Naquela busca de sua própria identidade, talvez até se desgostasse da idéia de não ser europeu, por considerar, ele também, como subalterno tudo que era nativo ou negro. Mesmo o filho de pais brancos nascido no Brasil, mazombo, ocupando em sua própria sociedade uma posição inferior com respeito aos que vinham da metrópole, se vexava muito da sua condição de filho da terra, recusando o tratamento de nativo e discriminando o brasilíndio mameluco ao considerá-lo como índio.
O primeiro brasileiro consciente de si foi, talvez, o mameluco, esse brasilíndio mestiço na carne e no espírito, que não podendo identificar-se com os que foram seus ancestrais americanos - que ele desprezava -, nem com os europeus - que o desprezavam -, e sendo objeto de mofa dos reinóis e dos luso-nativos, via-se condenado à pretensão de ser o que não era nem existia: o brasileiro.
Através dessas oposições e de um persistente esforço de elaboração de sua própria imagem e consciência como correspondentes a uma entidade étnico-cultural nova, é que surge, pouco a pouco, e ganha corpo a brasilianidade.
É bem possível que ela só se tenha fixado quando a sociedade local se enriqueceu, com contribuições maciças de descendentes dos contingentes africanos, já totalmente desafricanizados pela mó aculturativa da escravidão. Esses mulatos ou eram brasileiros ou não eram nada, já que a identificação com o índio, com o africano ou com o brasilíndio era impossível. Além de ajudar a propagar o português como língua corrente, esses mulatos, somados aos mamelucos, formaram logo a maioria da população que passaria, mesmo contra sua vontade, a ser vista e tida como a gente rasileira. Ainda que a especialização produtiva ecológico-regional - açúcar, gado, ouro, borracha etc. - conduzisse a diferenciações locais remarcadas, aquela comunidade básica originalmente luso-tupi se mantém, sempre dando uma linha de continuidade, que tanto destaca sua especificidade étnica como opõe as matrizes das quais surgiu e que matou ao constituir-se.
Aquela protocélula cultural, plasmada nas primeiras décadas, quando o elemento africano ainda estava ausente ou era raro, operou, daí em diante, como o denominador comum do modo de vida popular dos futuros brasileiros de todas as regiões.
Seu patrimônio básico estava constituído pelas técnicas milenares de adaptação dos povos Tupi à floresta tropical, que se integraram na herança cultural do mameluco.
De fato, os novos núcleos puderam brotar e crescer em condições tão inviáveis, e em meio tão diverso do europeu, porque aprenderam com o índio a identificar, a denominar e a classificar e usar toda a natureza tropical, distinguindo as plantas úteis das venenosas, bem como as apropriadas à alimentação e as que serviam a outros fins. Aprenderam, igualmente, com eles, técnicas eficazmente ajustadas às condições locais e às diferentes estações do ano, relativas ao cultivo e preparação de variados produtos de suas lavouras, à caça na mata e à pesca no mar, nas lagoas e nos rios. Com os índios aprenderam, ainda, a fabricar utensílios de cerâmica, a trançar esteiras e cestos para compor a tralha doméstica e de serviço, a tecer redes de dormir e tipóias para carregar crianças. Foi, com os índios, também, que aprenderam a construir as casas mais simples, ajustadas ao clima, como os mocambos, com os materiais da terra, nas quais viveria a gente comum; a fabricar canoas com casca de árvore ou cavadas a fogo em um só tronco. Sobre essa base é que se acumulariam, depois, as heranças tecnológicas européias que, modernizando a sociedade brasileira nascente, permitiriam melhor integrá-la com os povos de seu tempo.
Enfim, a atuar produtivamente sobre uma natureza diversa da européia e da africana, em condições climáticas também distintas, preenchendo os requisitos necessários à
sobrevivência nos trópicos. Essa herança técnico-cultural em que se assentava a adaptação ecológica dos brasileiros era essencialmente a mesma de todas as tribos agrícolas da floresta tropical. Tinha, porém, muitas peculiaridades que a faziam reconhecível como de origem tupi. Para tanto aqui se somam à língua falada pelos neobrasileiros, o nheengatu, que era uma variante do tronco tupi; a fórmula ecológica específica de sobrevivência nos trópicos, com
base na agricultura deles, que era também tupi; e a própria constituição genética dos núcleos mamelucos gerados por pais europeus principalmente nas índias da costa, que eram predominantemente tupi; para, tudo somado, dar aos brasileiros originais uma flagrante fisionomia tupi.
Com efeito, enquanto neotupis é que os núcleos mamelucos brasileiros opunham-se às outras matrizes indígenas - tratando-as genericamente como tapuias -, desprezando-as etnocentricamente como gente inferior, porque não falavam a mesma língua, não comiam farinha de mandioca, nem se comportavam como era cabível a verdadeiros homens. Mesmo a etnologia brasileira, só no presente século tornou-se capaz de distinguir a multiplicidade de povos, confundida sob aquela designação genérica, e de apreciar suas verdadeiras características culturais. As pesquisas de Curt Nimuendaju demonstraram o caráter especializado e relativamente avançado das culturas Jê.
Nesse sentido, o Brasil é a realização derradeira e penosa dessas gentes tupis, chegadas à costa atlântica um ou dois séculos antes dos portugueses, e que, desfeitas e transfiguradas, vieram dar no que somos: uns latinos tardios de além-mar, amorenados na fusão com brancos e com pretos, deculturados das tradições de suas matrizes ancestrais, mas carregando sobrevivências delas que ajudam a nos contrastar tanto com os lusitanos.
Como se vê, estava constituída já uma fórmula extraordinariamente feliz de adaptação do homem ao trópico como uma civilização vinculada ao mundo português mas profundamente diferenciada dele. Sobre essa massa de neobrasileiros feitos pela transfiguração de suas matrizes é que pesaria a tarefa de fazer Brasil.
A assunção de sua própria identidade pelos brasileiros, como de resto por qualquer outro povo, é um processo diversificado, longo e dramático. Nenhum índio criado na aldeia, creio eu, jamais virou um brasileiro, tão irredutível é a identificação étnica Já o filho da índia, gerado por um estranho, branco ou preto, se perguntaria quem era, se já não era índio, nem tampouco branco ou preto. Seria ele o protobrasileiro, construído como um negativo feito de sua ausência de etnicidade? Buscando uma identidade grupal reconhecível para deixar de ser ninguém, ele se viu forçado a gerar sua própria identificação.
O negro escravo, enculturado numa comunidade africana, permanece, ele mesmo, na sua identidade original até a morte. Posto no Brasil, esteve sempre em busca de algum irmão da comunidade longínqua com quem confraternizar. Não um companheiro, escravo ou escrava, como ele próprio, mas alguém vindo de sua gente africana, diferente de todos os que via aqui, ainda que eles fossem negros escravos.
Sobrevivendo a todas as provações, no trânsito de negro boçal a negro ladino, ao aprender a língua nova, os novos ofícios e novos hábitos, aquele negro se refazia profundamente. Não chegava, porém, a ser alguém, porque não reduzia jamais seu próprio ser à simples qualidade comum de negro na raça e de escravizado. Seu filho, crioulo, nascido na terra nova, racialmente puro ou mestiçado, este sim, sabendo-se não-africano como os negros boçais que via chegando, nem branco, nem índio e seus mestiços, se sentia desafiado a sair da ninguendade, construindo sua identidade. Seria, assim, ele também, um protobrasileiro por carência.
O brasilíndio como o afro-brasileiro existiam numa terra de ninguém, etnicamente falando, e é a partir dessa carência essencial, para livrar-se da ninguendade de não- índios, não-europeus e não-negros, que eles se vêem forçados a criar a sua própria identidade étnica: a brasileira.
O português, por mais que se identificasse com a terra nova, gostava de se ter como parte da gente metropolitana, era um reinol e esta era sua única superioridade inegável. Seu filho, também, certamente, preferiria ser português. Terá sido assim, até que aqueles mamelucos e índios e aqueles negros mestiçados ganhassem entidade, como identificação coletiva para que o mazombo deixasse de permanecer lusitano.
Temos aqui duas instâncias. A do ser formado dentro de uma etnia, sempre irredutível por sua própria natureza, que amarga o destino do exilado, do desterrado, forçado a sobreviver no que sabia ser uma comunidade de estranhos, estrangeiro ele a ela, sozinho ele mesmo. A outra, do ser igualmente desgarrado, como cria da terra, que não cabia, porém, nas entidades étnicas aqui constituídas, repelido por elas como um estranho, vivendo à procura de sua identidade. O que se abre para ele é o espaço da ambigüidade. Sabendo-se outro, tem dentro de sua consciência de se fazer de novo, acercando-se dos seus similares outros, compor com eles um nós coletivo viável. Muito esforço custaria definir essa entidade nova como humana, se possível melhor que todas as outras. Só por esse tortuoso caminho deixariam de ser pessoas isoladas como ninguéns aos olhos de todos.
Trata-se, em essência, de construir uma representação coparticipada como uma nova entidade étnica com suficiente consistência cultural e social para torná-la viável para seus membros e reconhecível por estranhos pela singularidade dialetal de sua fala e por outras singularidades. Precisava, por igual, ser também suficientemente coesa no plano emocional para suportar a animosidade inevitável de todos os mais dela excluídos e para integrar seus membros numa entidade unitária, apesar da diversidade interna dos seus membros ser freqüentemente maior que suas diferenças com respeito a outras etnias.
Quando é que, no Brasil, se pode falar de uma etnia nova, operativa? Quando é que surgem brasileiros, conscientes de si, senão orgulhosos de seu próprio ser, ao menos resignados com ele? Isso se dá quando milhões de pessoas passam a se ver não como oriundas dos índios de certa tribo, nem africanos tribais ou genéricos, porque daquilo haviam saído, e muito menos como portugueses metropolitanos ou crioulos, e a se sentir soltas e desafiadas a construir- se, a partir das rejeições que sofriam, com nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros.
O fato, porém, é que uma representação coletiva dessa identificação tem de existir fora dos indivíduos, para que eles com ela se identifiquem e a assumam tão plausivelmente, que os mais os aceitem numa mesma qualidade co-participada. Numa primeira instância, essa função é o reconhecimento de peculiaridades próprias que tanto diferencia e o opõe aos que a não possuem, como o assemelha e associa aos que portam igual peculiaridade. Quando se diz: nossos negros, a referência é a cor da pele; quando se fala de mestiços, aponta-se secundariamente para isso. Mas o relevante é que uns e outros são brasileiros, qualidade geral que transcende suas peculiaridades.
O surgimento de uma etnia brasileira, inclusiva, que possa envolver e acolher a gente variada que aqui se juntou, passa tanto pela anulação das identificações étnicas de índios, africanos e europeus, como pela indiferenciação entre as várias formas de mestiçagem, como os mulatos (negros com brancos), caboclos (brancos com índios), ou curibocas (negros com índios).
Só por esse caminho, todos eles chegam a ser uma gente só, que se reconhece como igual em alguma coisa tão substancial que anula suas diferenças e os opõe a todas as outras gentes. Dentro do novo agrupamento, cada membro, como pessoa, permanece inconfundível, mas passa a incluir sua pertença a certa identidade coletiva.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Ex-chefe militar diz pede desculpas a Fujimori no Peru





11/16/12-  Diário do Pará 
     O ex-presidente perunao, Alberto Fujimori, é acusado de ser o autor intelectual das matanças conhecidas como Barrios Altos e La Cantuta, nas quais foram executadas 25 pessoas pelo Grupo Colina por suspeitas de pertencerem à guerrilha Sendero Luminoso.
         O ex-chefe de um esquadrão da morte do Peru, Santiago Martín Rivas,  desculpou-se com o ex-presidente Alberto Fujimori por tê-lo acusado de ordenar a matança de pessoas na luta contra a guerrilha no país durante seu julgamento por abusos aos direitos humanos, que começou há um ano.

        Santiago Martín Rivas, ex-chefe do grupo militar Colina, disse em um processo contra Fujimori
que foi "induzido ao erro" em uma declaração gravada em vídeo que foi apresentada como
prova contra o ex-presidente.

      "Tenho que dizer a todas as pessoas ausentes, assim como o senhor presidente (Fujimori)
que está presente aqui, que quero pedir desculpas públicas pelos excessos verbais e pelos
excessos que cometi nesse tempo em que fui induzido ao erro", disse Martín Rivas na
audiência.

       O ex-militar  apresentou-se no julgamento para confirmar a autenticidade de suas declarações
gravadas em 2001 - quando era um refugiado da justiça local - e nas quais afirmou que
Fujimori aprovou os manuais de luta anti-subversiva que queriam aniquilar os grupos rebeldes.

O julgamento de Fujimori, de 70 anos, começou no dia 10 de dezembro do ano passado e
pelo tribunal já passaram dezenas de testemunhas entre civis, militares e até seu braço direito,
o ex-chefe de Inteligência Vladimiro Montesinos, hoje preso em uma base naval por corrupção
e tráfico de armas.
O ex-presidente é acusado de ser o autor intelectual das matanças conhecidas como Barrios
Altos e La Cantuta, nas quais foram executadas 25 pessoas pelo Grupo Colina por suspeitas
de pertencerem à guerrilha Sendero Luminoso.
Fujimori, que governou o Peru entre 1990 e 2000, antes de ser destituído pelo maior
escândalo de corrupção da história do país, negou várias vezes sua vinculação com o
esquadrão da morte.
"Como em outros vídeos, fiz afirmações sobre algumas pessoas e alguns órgãos, imputandolhes algumas responsabilidades penais, que não me constavam naquele momento e nem me
constam agora", disse Martin Rivas no tribunal. (Reuters)
http://www.diariodopara.com.br/impressao.php?idnot=20243

E as provas que condenaram Fujimori, cadê?


         Alguém aí sabe que provas contundentes e definitivas condenaram Alberto Fujimori*, confirmando o uso correto da Teoria do Domínio do Fato naquele processo? Todo mundo fala, mas ninguém explica. Eu fui atrás e comecei a descobrir.
   Zapeando pelo blog de Luis Nassifra, acabei achando um comentário muito interessante (feito por alguém que assina SCMarcos) a uma notícia sobre novo processo contra Fujimori (corrupção à imprensa). Diz SCMarcos:
         "Providencial esta postagem sobre Fujimori, por ter sido citado outro dia como exemplo de boa aplicação da  "Teoria do Domínio do Fato" por Roxin, que logo virou argumento para desmerecer o nosso STF.
            O domínio do fato no caso de Fujimori, tal qual no caso de José Dirceu,  também só foi comprovado através de depoimentos, nada mais. Alguns participantes do grupo Colina, que perseguiu os integrantes do Sendero Luminoso durante o governo Fujimori, em depoimentos afirmaram que "sabiam que Fujimori sabia e ordenava". Só isso. Nenhuma prova contundente também, nenhum vídeo, nenhum documento, nenhuma gravação. Por outro lado, muitos participantes do grupo, inclusive Vladimiro Montesinos, seu criador e comandante, afirmaram que tudo foi feito sem que Fujimori soubesse de nada.
           Por fim, é bastante interessante a similaridade com o que foi visto no julgamento de Fujimori e como está sendo visto o julgamento da AP 470. Lá como cá, os fujimoristas estavam convictos que se tratava de um perseguição política com vistas a eleição de 2011 e a possível eleição da filha de Fujimori, que inclusive foi ao segundo turno e perdeu por pouco para Humala. 
         Inclusive nos comentários lêem-se declarações que mais parecem de adoração a um ídolo do que a um ser humano qualquer, de como Fujimori acabou com o terrorismo e recolocou o Peru no caminho do crescimento, deu oportunidade a milhões de peruanos, etc., sem contar a afronta à Constituição e a comparação do Tribunal Federal do Peru a um circo da mídia, que cobriu o julgamento por longos 15 meses.
        Enfim, lá como cá, as paixões políticas se colocam acima da racionalidade cidadã. Uma pena.
       Quem quiser ler os comentários:

 O ex-presidente peruano Alberto Fujimori foi condenado a 25 anos de prisão por crimes contra os direitos humanos.  Em 1991, o grupo paramilitar conhecido como o esquadrão da morte Colina invadiu uma festa em Barrios Altos, bairro pobre do centro de Lima, e matou 15 pessoas suspeitas de terem vínculos com o grupo terrorista Sendero Luminoso. Em 1992, o esquadrão Colina sequestrou e assassinou oito alunos e um professor da Universidade La Cantuta, nas redondezas de Lima. O tribunal concluiu que Fujimori autorizou ambos os assassinatos, além dos sequestros do empresário Samuel Dyer e do jornalista Gustavo Gorriti.


quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Um gambá cheira outro


     A exemplo do procurador Jefferson Aparecido Dias, vagabundo e ignorante, que quer retirar a expressão "Deus seja louvado" das cédulas, o quadrilheiro corrupto petista, José Genoino, também queria retirar a expressão "sob a proteção de Deus" do preâmbulo da Constituição. Quebrou a cara o bestalhão.

   "Quando José Genoíno propôs a emenda supressiva n. 000523/87 para que – pelos mesmos argumentos dos militantes inimigos do crucifixo – Deus fosse retirado do preâmbulo da Constituição, teve sua proposta rejeitada por 74 votos contra um único: o dele próprio.

   Entre os que rejeitaram estava Roberto Freire – ateu e comunista – que, reconhecendo seu mandato representativo, declarou, em nome do povo brasileiro, seu voto contrário. 

   Os dados oficiais posteriores à promulgação confirmavam seu acerto: 95,26 % dos brasileiros praticam religião, destes, 97% são cristãos. Em 2001, pesquisa da Veja (1737) revelou que 99% dos brasileiros acreditam em Deus, destes 93% são cristãos."(do blog do Wambert Di Lorenzo)

domingo, 11 de novembro de 2012

Por quê?!

      Mistério profundo: por que as pessoas passaram a usar reticências? É um tal de escrever assim... são frases que não acabam... como se faltasse estudar gramática... ler mais.... quer saber? Melhor parar de escrever! Ponto final.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Resumindo: bom para índio Guarani-Kaiwá é jesuíta.

           

    Darcy Ribeiro (a despeito de ter desperdiçado sua inteligência exuberante com análises marxistas indigentes) é o maior antropólogo brasileiro. Ele (con)viveu particularmente com os índios da região compreendida pelo sul do Mato Grosso, oeste de São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul.

    Eis o que diz Darcy Ribeiro em seu livro Os índios e a Civilização - A Integração das Populações Indígenas no Brasil Moderno:
  

  "Esta foi uma das regiões de maior densidade demográfica do Brasil indígena. Aí os jesuítas conseguiram juntar a maior parte dos índios que povoaram suas célebres missões do Paraguai. Graças a uma organização econômica coletivista, elevaram essas tribos guarani a um nível de desenvolvimento material e de domínio de técnicas européias jamais alcançados depois.

   Mas constituíram, também, verdadeiros viveiros de escravos, primeiro para os bandeirantes paulistas - que, segundo cálculos exagerados dos jesuítas, mataram e escravizaram mais de trezentos mil índios missioneiros-, depois para os fazendeiros paraguaios, que, com a expulsão da Companhia de Jesus, se apossaram das missões, tomando a terra aos índios e levando-os ao último grau de penúria e desespero"

  "Após a destruição das missões jesuíticas, uma parte das tribos guarani que as povoaram fundiu-se com a população rural do Paraguai: são os Guarani modernos. Outra parte fugiu para as matas, indo juntar-se aos grupos que se tinham mantido independentes, voltando a viver a antiga vida de lavradores e caçadores. Estes são os Kaiwá, Guarani primitivos, contemporâneos."

  Os guarani, no início, viveram sossegados porque a mata que ocupavam não tinha interesse para os criadores. Mas o sossego durou pouco: a erva-mate nativa atraiu a cobiça dos extratores; em pouco tempo, os índios começaram "a ter suas terras exploradas por paraguaios que, falando também o guarani, puderam mais facilmente aliciar os índios para o trabalho, ensinar-lhes as técnicas de extração e o preparo da erva e acostumá-los aos uso de ferramentas, panos, aguardente, sal e outros artigos, cujo fornecimento posterior era condicionado à sua integração comno mão de obra na economia ervateira".

  •   O domínio da região pelos ervateiros e a integração dos guarani no processo econômico acabou levando a maioria das tribos "ao colapso pela impossibilidade de conciliar as exigências do trabalho assalariado individual com sua economia coletivista." 

      Deste modo, os Guarani escapos das missões, dos paulistas e dos colonos paraguais caem novamente na penúria e no desespero a que tantas vezes já os tinha levado o contato com a civilização".

      Resumindo: tempo bom para os índios Guarani-Kai(o)wá foi o dos jesuítas.

Eu saio sem calça

    Pode-se ser casta, decente e discreta de calça comprida ou de vestido. Vale também para o oposto: pode-se ser vulgar, indecente e inconveniente tanto de vestido quanto de calça. A esta altura, a Igreja proibir calça comprida por imoral? Acho que não proíbe. 

    Eu, há mais de uma década, aboli inteiramente a calça comprida de meu vestuário de sair, porque eu gosto de vestir-me de mulherzinha quando saio. Sou a única pessoa que eu conheço que não tem jeans. Mesmo quando eu usava calça comprida, preferia linho, seda, algodão. Sempre achei estranho a gente vestir roupa de lona. 

    Ainda mantenho em meu guarda-roupa as minhas calças compridas. Vai que um dia ...Em casa, por praticidade, eu visto pijamas e pantalonas, principalmente no inverno.

    Eu gosto de usar saia e vestido porque é feminino, delicado e elegante. Exige que a mulher esteja bem vestida, com sapato bonito, combinando os acessórios.

    Calça comprida basta enfiar uma camiseta e tênis. Argh!

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Hay PT? Soy contra

    Qualquer candidato é melhor que um petista. Só vota em petista sujeito burro ou desonesto. Ou é ignorância ou é má-fé. 

    Lula, o chefe do mensalão, é um delinqüente, de fato e de direito. Quer transformar urna em tribunal, considerando a eleição dos candidatos do PT uma resposta à condenação dos mensaleiros pelo STF. 

    O bestalhão analfabeto afronta um dos poderes da República, chamando o julgamento d
e hipocrisia. 

    
    Esta corja de corruptos quadrilheiros, liderada por José Dirceu, tem é que calar a boca, baixar a cabeça, fazer as trouxas e puxar cana. São bandidos, segundo a mais alta corte de justiça do país.


   Quem vota em petista não é eleitor, é cúmplice de criminoso. Eu não sou. Vou votar contra Haddad em São Paulo.

domingo, 14 de outubro de 2012

O que intriga em Joaquim Barbosa

        Joaquim Barbosa vem sendo cantado em prosa e verso como herói. Pensando bem, ele não fez mais que a sua obrigação: cumpriu a lei. Tem meu apoio e respeito, podia estar na posição do ministro Lewandowski: de quatro. Em vez de absolver os mensaleiros, Barbosa está mandando todo mundo para a cana.

    Intrigante é o seu voto em Dilma Rousseff, em 2010. Na campanha eleitoral daquele ano, José Dirceu, 'indiretamente' (como ele diz), foi um dos coordenadores da campanha de Dilma e ajudou a costurar as alianças políticas nos palanques. Todo mundo sabia. 
   

    Quando votou em Dilma, Joaquim Barbosa já era o relator da Ação Penal 470 (o mensalão) desde 2007, data do recebimento e aceitação pelo STF da denúncia do Ministério Público dando conta que José Dirceu era o chefe da quadrilha formada no governo Lula para comprar apoio político no Congresso, em parte com dinheiro público. Barbosa conhecia, na época, todos os fatos que estão no seu voto. 

    Aliás, Joaquim Barbosa também votou em Lula em 2002 e em 2006, mesmo depois do escândalo do mensalão explodir.

    Estranho.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Lula apóia Claudinho da Geladeira



     Ao deixar a Presidência da República, Lula ia ser Secretário-Geral da ONU ou Presidente do Banco Mundial, ia ensinar a Europa a resolver crise econômica e ao Oriente Médio a acabar com conflito árabe-israelense e, de quebrar, ia mostrar a Fernando Henrique como ser um verdadeiro ex-presidente. 

     Acabou fazendo campanha para Claudinho da Geladeira, candidato do PT a prefeito de Rio Grande da Serra, potência econômico-cultural e política da Grande São Paulo, com seus 41 mil habitantes. Claudinho da Geladeira conserta geladeira. 

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Lixo humano

A militância vegan compara o extermínio de seis milhões de seres humanos à morte de galinhas e vacas. Estes seres desprezíveis usam a palavra 'holocausto' para falar do departamento de abate dos aviários e frigoríficos! Gente nojenta e psicopata, isto é o que é um militante revolucionário das causas 'nobres'.


segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Vegan: nem para sabão
























   Os animais que invadem as ruas em passeatas 'vegan' (o que quer que signifique esta coisa) falam em 'holocausto', referindo-se à morte de galinhas! Remetem ao Decálogo ("Não matarás") para protestar contra a fabricação de lingüiça de porco. 

    Será que dá para fazer pelo menos sabão desta raça de idiotas? Ou, então, poderíamos soltá-los em parques e reservas onde vivem animais selvagens, como 'ração". Que tal?

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Embrião é semente



    Se matar, a semente não vira árvore. Se abortar, o embrião não vira gente. Apesar disto, tem muito defensor do 'verde' que é a favor do aborto. 

    Confere aí: loucos por mato costumam ser abortistas. Os assassinos não vêm nenhuma contradição nesta loucura. É que abortista gosta de matar, só isto.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Caetano Gonçalves de Macedo, meu avô.



     Vovô Caetano era um homem de inteligência exuberante. Seu raciocínio para a matemática impressionava, ele tinha uma capacidade inigualável para empreender.


    Nasceu pobre, tornou-se um grande fazendeiro e foi prefeito de Coração de Jesus/
MG por nove anos. Modernizou a cidade, construindo, na década de 50, até um campo de pouso para aviões (que as línguas ferinas e maledicentes apelidaram de 'campo de futebol' hehe).


    Mamãe conta que, certa vez, lá pousou um avião com belos pilotos americanos, as mães da cidade ficaram encantadas com a possibilidade de arranjar um casamento para as filhas e garantir herdeiros louros de olhos azuis que falavam inglês.


       Refinado, meu avô nada tinha em comum com coronéis toscos e endinheirados. Ele andava sempre de terno de linho branco (Montes Claros, onde ele veio morar no final da década de 50, é muito quente) e chapéu panamá. 


       Morreu dormindo em sua cadeira de balanço ao lado da janela que dava para uma videira enorme, no jardim da casa. Ele também gostava de rapé e colecionava moedas de ouro.






    A família de meu pai era a coisa mais próxima dos Kennedy que eu conheci. Caetano Gonçalves de Macedo era o chefe do clã, o patriarca.

* Meu pai é o último à direita na foto; atrás, minha mãe, de cabeça baixa (ela justifica o gesto por sua preocupação com um filho que estava doente. Mas poderia ter levantado a cabeça, a foto é para sempre
.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O Tráfico Negro no Brasil e a Igreja


O Tráfico Negro no Brasil e a Igreja
(D. Estevão Tavares Bettencourt, OSB)

As tribos da África Ocidental praticavam a venda de homens negros como escravos. Procuravam assim os vencedores na guerra retirar algum lucro da vitória: trocavam por dinheiro ou mercadorias os adversários prisioneiros; para estes, era preferível ser vendidos como escravos a permanecer sob o domínio de africanos vencedores; estes tratavam ignominiosamente os vencidos.

No Brasil, a exploração das minas e demais riquezas naturais sugeriu aos portugueses a procura de escravos na África - coisa, aliás, que já outros povos (como, por exemplo, os árabes da península ibérica) praticavam, para atender aos serviços da agricultura e da indústria. 

Principalmente após D. Afonso, que reinou até 1453, os reis de Portugal perderam o controle sobre a importação de escravos, de modo que os colonos portugueses levaram multidões de africanos para a Europa. Consequentemente também os trouxeram para o Brasil, fazendo negócios altamente lucrativos tanto para quem vendia como para quem comprava os negros.

 A Igreja não se calou diante de tais costumes. Entre os documentos que o atestam, existe uma carta do Papa João VIII, datada de setembro de 873 e dirigida aos Príncipes da Sardenha, que diz:

-Há uma coisa a respeito da qual desejamos admoestar-vos em tom paterno; se não vos emendardes, cometereis grande pecado, e, em vez do lucro que esperais, vereis multiplicadas as vossas desgraças. Com efeito,- por instituição dos gregos, muitos homens feitos cativos pelos pagãos são vendidos nas vossas terras e comprados por vossos cidadãos que os mantêm em servidão. 

Ora consta ser piedoso e santo, como convém a cristãos, que, uma vez comprados, esses escravos sejam postos em liberdade por amor a Cristo,- a quem assim proceda, a recompensa será dada não pelos homens, mas pelo mesmo Nosso Senhor Jesus Cristo. Por isto exortamo-vos e com paterno amor vos mandamos que compreis dos pagãos alguns cativos e os deixeis partir para o bem de vossas almas (Denzinger-Sch'ánmetzer, Enquirídio dos Símbolos e Def inições nº 668).

0 Papa Pio II, em 7 de outubro de 1462, condenou o comércio de escravos como magnum scelus (grande crime).

Em 1571 Tomás de Mercado, teólogo de Sevilha, declarava desumana a traficância de escravos, tanto mais que instaurava uma luta fratricida entre os próprios africanos. Em sua Summa de Tratos y Contratos, este autor afirmava não haver justificativa para negócio tão infame.

Houve mesmo sacerdotes que se sacrificaram, tanto no Brasil como fora, em favor dos escravos. Sejam citados, entre outros, os Padres Afonso Sandoval S.J. e Pedro Claver. 0 primeiro foi o pioneiro do trabalho em prol dos negros em Cartagena das Índias, porto de tráfico no Mar das Antilhas.

Com grande coragem denunciou os maus tratos de muitos traficantes; através de seus escritos, tentou suscitar uma mentalidade antiescravagista; para melhor trabalhar, procurou conhecer a cultura africana a fim de entender mais perspicazmente aqueles pobres seres humanos que ele defendia.

Quanto a Pedro Claver, em 1610 chegou de Sevilha a Cartagena das Indias, onde o Pe. Sandoval lhe ensinou o amor aos negros. Na Colômbia foi ordenado sacerdote e passou a trabalhar com o Pe. Sandoval junto aos negros. No ano seguinte, foi para o Peru; retornou depois a Cartagena e assumiu também as missões entre os escravos das fazendas do interior. 

Durante toda a sua vida, cuidou de cerca de trezentos mil escravos. Em 1639, quando o Papa Urbano Vil 1 publicou um documento em favor dos escravos, viveu dias felizes. Todavia esse servidor dos escravos morreu paralítico, de doença contraída nas missões da região pantanosa de Tolu e Finu, aos 8 de setembro de 1654.

As Constituiçoens primeyras do Arcebispado da Bahia (1707) mais de uma vez se voltaram para a sorte dos escravos, procurando fazer que os senhores lhes propiciassem ou facilitassem os bens espirituais. Assim, por exemplo, no tocante ao sacramento do matrimônio, rezavam as Constituições:

-Conforme o direito divino e humano, os escravos e escravas podem casar com outras pessoas cativas ou livres e seus senhores lhes não podem impedir o matrimônio nem o uso dele em tempo e lugar conveniente, nem por esse respeito os podem tratar pior, nem vender para outros lugares remotos, para onde o outro, por ser cativo ou por ter outro justo impedimento, o não possa seguir, e, fazendo o contrário, pecam mortalmente e tomam sobre suas consciências culpas de seus escravos, que por este temor se deixam muitas vezes estar e permanecer em estado de condenação- (D. Sebastião Monteiro de Vide, Constituiçoens, titulo 71).

Os sacramentos da Eucaristia e da Penitência eram de fácil acesso aos escravos, principalmente na Quaresma, em vista do cumprimento do preceito pascal.

No concernente ao sacramento da Ordem, o impedimento para os escravos não era racial, mas provinha da própria condição de escravos. Regozijavam-se, porém, quando entravam em contatos com sacerdotes negros, que vinham da Costa de Angola ou da ilha de São Tomé, onde havia um cabido de cônegos todos negros.

 Deve-se notar também o papel benéfico desempenhado pelas Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, cujas igrejas eram pontos de encontro de escravos e livres; aí cultuavam a Deus e faziam suas devoções como também exprimiam suas aspirações e deixavam vir à tona seus íntimos sentimentos.

Dentre os Estatutos dessas Confrarias merecem destaque alguns tópicos como os seguintes:
-Toda pessoa, preta ou branca, de um ou outro sexo, forro ou cativo, de qualquer nação que seja, que quiser ser Irmão desta Irmandade, irá à mesa ou à casa do Escrivão da Irmandade pedír-lhe faça assento de Irmandade--- (Cap. 1 do Compromisso da Irmandade da Paróquia do Pilar de Ouro Preto).

0 capítulo 11 do mesmo Compromisso reza:
-Haverá nesta Irmandade um Rei e uma Rainha, ambos pretos, de qualquer nação que sejam, os quais serão eleitos todos os anos em mesa a mais votos e serão obrigados assistir com o seu estado as festividades de Nossa Senhora e mais Santos, acompanhando no último dia atrás do pálio".

Vê-se que nestes textos desaparecem as diferenças raciais; além do que, escravos e livres são equiparados entre si.

 Descendo através dos tempos, temos uma Carta do Papa Pio VII enviada ao Imperador Napoleão Bonaparte da França, em protesto contra os maus tratos infligidos a homens vendidos como animais; ao que acrescentava: "Proibimos a todo eclesiástico ou leigo ousar apoiar como legítimo, sob qualquer pretexto, este comércio de negros ou pregar ou ensinar em público ou em particular, de qualquer forma, algo contrário a esta Carta Apostólica" (citado por L. Conti, A Igreja Católica e o Tráfico Negreiro, em 0 Tráfico dos Escravos Negros nos séculos XV-XIX. Lisboa 1979, p. 337).

0 mesmo Sumo Pontífice se dirigiu a D. João Vi de Portugal nos seguintes termos:
Dirigimos este ofício paterno à Vossa Majestade, cuja boa vontade nos é plenamente conhecida, e de coração a exortamos e solicitamos no Senhor, para que, conforme o conselho de sua prudência, não poupe esforços para que... o vergonhoso comércio de negros seja extirpado para o bem da religião e do gênero humano

Pio VII também muito se empenhou para que no Congresso Internacional de Viena (1814-15) a instituição da escravatura fosse condenada e abolida.

 Quanto à travessia do Oceano Atlântico por parte dos escravos trazidos em navios negreiros, verifica-se hoje que descrições de Castro Alves e outros autores são hiperbólicas e poéticas, fugindo à realidade histórica. Os brancos tinham interesse em prover à conservação da vida de seus escravos em condições tão boas quanto possível, visto que os negros deviam ser oferecidos aos colonos do Brasil, que os examinariam de perto antes de os comprar. Julga-se até que os traficantes contratavam médicos que acompanhavam a população dos navios negreiros.

 Alforrias e "Mão Posta”

A alforria é ato de libertar um escravo. Tal prática foi notável no Brasil colonial não só em favor dos inválidos (como erroneamente já se disse).

Havia ocasiões propícias à concessão de alforria por parte dos senhores: festas familiares, confecção de testamento, visitas episcopais. A alforria podia ser concedida também como recompensa à lealdade no serviço.

Além disto, registram-se os vários casos de escravos que compravam a sua liberdade ou a conseguiam através de padrinhos e madrinhas benfeitores. Os libertos ajudavam os ex-companheiros de serviço a conseguirem a sua libertação. As próprias Irmandades emprestavam dinheiro para que o escravo se tornasse forro.

Podia outrossim ocorrer a chamada "coartação": o escravo e o patrão estipulavam o preço do resgate, que o servo ia pagando aos poucos; entrementes, o cativo já gozava de vários direitos do homem livre. Mais: os escravos que denunciassem um contrabando, eram libertados pelo Estado. Aqueles que encontrassem diamantes acima de vinte quilates, eram alforriados.

Na Bahia, os negros organizaram "fundos de empréstimos" para facilitar a compra da alforria; essas organizações foram-se convertendo em sociedades emancipacionistas. A eficácia de tais instituições pode-se avaliar pelo seguinte depoimento de Herbert S. Klein, doutor pela Universidade de Chicago e autor do livro African Slavery in Latin America and the Caribibean, onde assevera:

-Na época do primeiro censo nacional brasileiro, em 1872, havia 4,2 milhões de pessoas de cor livres e 1,5 milhão de escravos. As pessoas de cor livres não apenas ultrapassavam em número os 3,8 milhões de brancos, mas também representavam 43%dà população brasileira, de 10 milhões de habitantes. Tudo isto mais de uma década antes da abolição da escravatura(pp. 241-X.

A Igreja incentivou as formas de libertação dos cativos, como bem dizia D. Pedro Maria de Lacerda, bispo do Rio de Janeiro:

-Provemos que os aplausos tantas vezes dados a quem dava alforria, eram aplausos sinceros, nascidos de um coração ansioso de ver a liberdade refulgir mais e mais entre os homens à sombra da Cruz- (Carta Pastoral anunciando a Lei nº 2040 de 

A Manu posita (Mão posta) era a prática de angariar recursos para redimir cativos por parte de pessoas caridosas; estas eram chamadas "manuposteiros". Constituiam associações com seu Regimento; os membros dessas entidades tinham cada qual a sua função: ora a de esmolér, que pedia donativos.por ocasião das festas ou nas fazendas, nas igrejas, nas ermidas, ora a de escriturar as receitas (escrivães), ora a de guardá-las e distribui-ias na qualidade de tesoureiro. . .

Aliás, existiam na Igreja a Ordem da SS. Trindade, desde 1198, e a dos Mercedários ou Nolascos desde 1222, destinadas a redimir os cativos detidos pelos sarracenos. A existência dessas Ordens era, por si mesma, uma réplica à prática da escravatura: como explicar a arrecadação de elevadas somas para pôr em liberdade cativos, se, de outro lado, os próprios portugueses aprisionavam africanos e os reduziam à escravidão? Os Trinitários e os Mercedários suscitaram, por seu trabalho, uma mentalidade anticativeiro, que se exprimiu no Brasil através dos manuposteiros. Assim descreve o historiador Vítor Ribeiro a solenidade do resgate realizada pelas Ordens Religiosas:

Era revestida de pompas estranhas a expedição de resgates. Os redentores, depois de terem recolhido as esmolas em cofre especial, despediam-se de El-Rey e do seu convento, deixavam crescer longas barbas, embarcavam com o cofre, e iam à Mauritânia expor-se a mil perigos, vexames e emboscadas com a cautela que a experiência lhes ia aconselhando; negociavam os resgates por intermédio do governo de Bey ou das autoridades e, por fim, conseguindo libertar os cativos, reconduziam-nos ao reino, onde faziam e publicavam longas listas de resgates, com os nomes, idades, naturalidades, condições de cativeiro e libertação e custo dos resgates... Depois, em dia aprazado, fazia-se em Lisboa solene procissão em que entravam várias Ordens e Confrarias, especialmente a da Misericórdia e a de Nossa Senhora do Resgate, a qual dava volta à igreja velha da Misericórdia e regressava ao convento (cf. História de Portugal, vol. IV, Damião Peres (Dir.) Barcellos, Portucalense Editora 1932, p. 565).

0 Bispo do Rio de Janeiro, D. Pedro Maria de Lacerda, em 1871 escrevia na sua Carta Pastoral referente à Lei do Ventre Livre:

A Igreja Católica alegra-se imensamente à vista do que acaba de realizar-se entre nós. E como não? Por ventura não é a Igreja Católica que deu ao mundo São João da Mata e que aprovou a Ordem dos seus Religiosos da Santíssima Trindade, cujo fim principal foi resgatar os que gemiam cativos em poder dos Sarracenos? 

Não foi a Igreja Católica que aprovou a Ordem dos Religiosos das Mercês, instituída por São Pedro Nolasco com o fim de resgatar os cativos que viviam sob o poder dos infiéis, obrigando-os a um heroismo assombroso de caridade, ligando-os com um solene voto a se deixarem eles mesmos em ferros como penhora e reféns, se tanto fosse preciso para o resgate dos Cristãos?

 E a Igreja Católica não celebra há tantos séculos a 24 de setembro de cada ano a instituição dessa heróica Ordem Relígiosa, criada por inspiração de Maria Santíssima, a quem a Igreja reconhece tanti operis Institutricem? E graças a Deus, no quinto dia dentro do oitavário desta festa é que a nova lei brasileira foi sancionada pela Augusta Princesa Imperial Reqente---.

Os frutos da mentalidade humanitária despertada pelo Cristianismo são atestados por vários relatos de viajantes e cronistas que passaram pelo Brasil. Entre outros, merece atenção Henry Koster. Filho de ingleses, nascido em Portugal, chegou ao Brasil em 1809. No seu livro Travels in Brazil relata viagens ao Nordeste e refere-se à condição dos escravos:

Atesta Koster: 'Os escravos no Brasil gozam de maiores vantagens que seus irmãos nas colônias britânicas. Os numerosos dias santos para os quais a Religião Católica exige observância, dão ao escravo muitos dias de repouso ou tempo para trabalhar em seu proveito próprio. Em trinta e cinco desses dias e mais nos domingos é-lhes permitido empregar seu tempo como lhes agradar' ' Atribui à opinião pública força suficiente para obstar que os senhores diminuíssem o número destes dias, o que revela uma mentalidade altamente humanitária da sociedade de então.

Desce Koster a detalhes sobre as alforrias, porta aberta para a libertação dos cativos, destacando o papel não relevante das associações religiosas:

'Os escravos possuem sua Irmandade como as pessoas livres, e a ambição que empolga geralmente o escravo é ser admitido numa dessas confrarias, e ser um dos oficiais ou diretores do conselho da sociedade'.
          
  Focaliza a tema devoção dos cativos a Nossa Senhora do Rosário, algumas vezes, pintada com a face e as mãos negras. Ressalta que 'os reis do Congo brasileiro invocam a Nossa Senhora do Rosário e são vestidos como vestem os brancos. Conservam, é verdade, a dança do seu país, mas nessas festas são admitidos pretos africanos de outras nações'. É que tribos de diversas regiões africanas, muitas até rivais na África, aqui se irmanavam sob o signo da Mãe comum, a Virgem Maria, que tanto amavam e veneravam.

Que os escravos eram respeitados se deduz deste assento: 'Os escravos no Brasil são regularmente casados de acordo com as fórmulas da Igreja Católíca. Os proclamas são publicados como se fossem para pessoas livres. Tenho visto vários casais felizes (tão felizes quanto podem ser os escravos), com grande número de filhos crescendo ao redor deles'.

Nota ainda Koster que era permitido que os escravos se casassem com pessoas livres. Se a mulher era escrava, o filho permanecia cativo; mas se o homem era escravo e a mulher forra, o filho era também livre.

'Aos escravos pertencem os sábados de cada semana para providenciar sua própria subsistência, além dos domingos e dias santificados. Os que são diligentes raramente deixam de comprar sua liberdade. Os monges não guardam interferência alguma quanto às roçarias dadas aos escravos, e quando um desses morre ou obtém sua alforria, permitem que leguem seu pedaço de terra a qualquer companheiro de sua escolha. Os escravos alquebrados são carinhosamente providos de alimento e roupa'

Testemunha ainda que muitos agricultores tratavam sua escravaria com carinho. Aliás, alega textualmente: 'Embora os negros sejam sustentados por seus amos, existindo terras com abundância, permitem aos escravos plantar o que quiserem e vender as colheitas a quem lhes aprouver. Muitos criam galinhas e porcos e, ocasionalmente, um cavalo para alugar e possuir o dinheiro assim obtido(transcrito do livro de J. Balmes: A Igreja Católica em face da Escravidão, pp. 108-110).

São estes alguns aspectos da história da escravidão no Brasil que devem ser postos em relevo para que se tenha uma visão tão objetiva e fiei quanto possível do período analisado.