sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Orlando Fedeli e eu


       Quando, no final de 2004/início de 2005, a empulhação marxista começou a ficar nítida e a transcendência voltava a fazer sentido, eu fui atrás de qualquer informação que me apontasse para Deus. Eu estava tateando à procura do caminho de volta para a Casa do Pai.
      
     Eu não erraria se dissesse que eu encontrei o caminho, no dia 2 de abril de 2005, ainda que não me desse conta inteiramente do que estava acontecendo comigo. Quando eu ouvi o anúncio da morte do Papa João Paulo II, naquele 2 de abril, eu disse, chorando, ao meu marido:"Este homem está há 25 anos tomando conta de nós".

     Dizem que as coisas não acontecem assim (acontecem assim, sim) mas naquele dia 
algo profundo aconteceu. Foi, ali, o "instante" da conversão. Hoje, eu costumo dizer que eu sou o último milagre de João Paulo II, eu tenho certeza de que ele rezou por mim. 
      
      Um mês depois da morte do papa, em maio, numa destas buscas pela internet, acabei caindo no site da Montfort, do professor Orlando Fedeli. Gostei. Era uma coisa totalmente oposta à igreja modernosa e horrorosa dos padres-vedetes e das missas cheias de graça. Entrei e fui devorando o que encontrava. Li tudo.

      Em outubro de 2005, já radicalmente de volta à fé da Igreja, reconciliada com Deus e santificada pelos sacramentos da confissão e Eucaristia, eu resolvi escrever um relato da minha conversão, a que dei o título "A Volta para Casa" * e, como não tinha nem blog para publicar, resolvi mandar para o site da Montfort. Não cogitei que fosse ser publicado.   

      Para minha surpresa, o próprio professor Orlando ligou para a minha casa, chorando, comovido com o meu relato, querendo minha permissão para publicar a carta. Eu mal acreditei. Fiquei lisonjeada.

      Começamos a trocar emails e, em fevereiro de 2006, ele veio até a minha casa com a sua esposa, Ivone, para que nos conhecéssemos. Ivone é uma mulher admirável, estudiosa, muito culta, preparada, e que tratava o professor com doçura, respeito e firmeza. Nos tornamos grandes amigos. 

      Como meus filhos não eram batizados, ele se ofereceu para ensinar-lhes o catecismo e, durante seis meses, ele veio toda quarta-feira à tarde para as aulas de religião. E conversávamos muito, eu o  ouvia falar com prazer. Aprendi muito com o professor. 
   
      O professor sabia tudo da história da Igreja e da doutrina católica. Ele tinha um memória prodigiosa e era uma das pessoas mais divertidas com quem se podia conviver. E se doava com uma generosidade rara.
      
      Em maio daquele ano, eu completaria 25 anos de casamento e decidi me casar no religioso, eu era casada apenas no civil. Foi uma cerimônia singela, mas comovente. Convidei o professor Fedeli e Ivone para serem meus padrinhos. O coral de música sacra da Associação Montfort cantou na cerimônia, foi muito bonito. Entrei na igreja com meu filho, ao som de "Jesus, alegria dos homens".

      A minha convivência com os Fedeli e o pessoal da Montfort   era cordial e prazeirosa, eu ia aos domingos assistir à missa em latim,  na paróquia São Carlos Borromeu, na Moóca (onde o professor morava) e participava dos excelentes cursos e palestras  promovidos pela Montfort, sempre ligados ao cristianismo,  Igreja, cultura do período conhecido como 'cristandade, arte sacra,  Idade Média, doutrina católica. 

      Depois dos cursos, os alunos e participantes costumavam se reunir em animados e divertidos almoços em trattorias paulistanas. Era um ambiente e clima muito acolhedores, de conversa elevada, pessoas educadas e elegantes. Eu adorava.
          

      Eu era tratada com muita deferência, tanto pelo próprio Orlando Fedeli quanto pelo pessoal que fazia parte, vamos dizer assim, de seu apostolado, o pessoal da Associação Montfort. Todos demonstravam sinceramente admiração pela forma honesta com que eu relatei a minha conversão, pela minha adesão ao grupo, sem arrogância elitista ou pedantismo intelectual e, não raro, ouvi confissões, verdadeiras, de pessoas que disseram-me ter se convertido depois de ler meu testemunho no site da Montfort. Todo mundo conhecia e se referia à "jornalista que escreveu A Volta para Casa"

      Mas, a certa altura, sem que eu pudesse imaginar, as coisas sairam do eixo e o rompimento - inevitável - aconteceu. É que, apesar de tratar o professor Fedeli com absoluta reverência e respeito, eu comecei a fazer questionamentos sobre certos 'dogmas' fedelianos. A sua obsessão pela gnose o fazia ver heresias gnósticas em toda a parte, em qualquer coisa. Eu não sabia quase nada, mas sempre queria saber 'por que', 'como', o quê... 


     Nunca houve, contudo, qualquer desentendimento sério ou conversa ríspida entre nós. Até que, certo dia, ele me telefonou, dizendo que nós precisávamos conversar sobre um email que eu lhe enviara. Nele, eu me referia a um texto do então cardeal Joseph Ratzinger sobre protestantismo, que a mim parecia uma análise mais correta do que a de um aluno seu, que escrevera um artigo sobre Lutero no site da Montfort. No email, eu dizia:

     
     "Professor Orlando, lendo a análise de Marcos Libório sobre "Os três princípios protestantes", lembrei-me de um texto escrito pelo cardeal Ratzinger, em 1986 - http://www.ratzinger.it/modules.php?name=News&file=article&sid=216 - em que ele fala do protestantismo numa perspectiva diametralmente oposta à do texto publicado no site da Montfort. 

    "Para Ratzinger, o protestantismo é cristianismo e é a partir do que ele tem em comum com o catolicismo - e tem muito - que deve se dar o diálogo com vista à unidade dos cristãos. Quando li este texto, achei-o muito rico e pensei mostrá-lo e discutí-lo com o senhor. Por qualquer motivo, acabei esquecendo."
     
     "Este tipo de análise feita por Marcos Libório não faz muito sentido para mim. Dizer que todos os protestantes do mundo são, velada ou abertamente, adoradores do demônio e que servem à Satanás é evidentemente um absurdo. É uma idéia que, na minha opinião, não se sustenta nem teológica nem doutrinariamente." 

    "Pode existir - e existem - adoradores do diabo em todo lugar; agora, dizer que a doutrina protestante é pura gnose - aquela mesma, explicada em termos bem simples - é uma  simplificação. Com o tipo de argumentação e raciocínio utilizados, Libório prova  que até rótulo de xampu é gnóstico."

     "Non sono intenditore, o que li sobre doutrina católica e o protestantismo não me habilita a desafios intelectuais maiores. Mas, pelo pouco que compreendi, fico com a análise apresentada pelo cardeal Ratzinger. O que o senhor acha?"


             Na verdade, o professor Orlando Fedeli não queria conversar, ele queria que eu aceitasse, sem discutir, o seu ponto de vista, o mesmo defendido por Marcos Libório no artigo: os protestantes são todos hereges satânicos a caminho do inferno. 

     Quanto à posição de Raztinger centrada na crença em Cristo como plataforma comum inicial para o diálogo com os protestantes, o professor Fedeli insistiu que Joseph Ratzinger tinha mudado de opinião e não pensava mais como no artigo por mim citado (I progressi dell'ecumenismo/86). 

     O professor Orlando sabia que isto não era verdade. Eu lhe recordei que o Papa Ratzinger tinha reafirmado, palavra por palavra, o artigo de 86, num encontro com protestantes na Alemanha, durante a XX Jornada Mundial da Juventude, em 2005. Nem assim, ele admitiu seu equívoco. 

     Quanto aos comentários à enciclica Gaudium et Spes, que Ratzinger qualificou como 'uma espécie de Antisyllabus', observei que eles eram de 85, portanto, anteriores ao artigo citado. (Fedeli tinha feito referência a isto na conversa)

     Como o professor Fedeli tinha uma memória prodigiosa para fatos e datas, cometer aqueles 'erros' eram, na verdade, um 'excesso de zelo' pelo que o professor Orlando considerava a verdadeira ortodoxia católica.  Ele como que ficou cego de amor a Deus

     A conversa desandou quando eu lhe perguntei: "Onde é que o senhor acha que Buda está?" Ele disse " Isto eu não vou lhe responder". E encerrou a conversa dizendo que, se eu não aceitava o que ele tinha me ensinado, deveríamos parar por ali. Respondi: "Reze por mim". Foi a última vez que conversamos.
   
     Eu fiquei muito triste com o afastamento, foi abrupto, rápido, sem motivo. Hoje, eu vejo que eu não cabia no seu grupo, eu não poderia fazer parte de seu apostolado. As pessoas à sua volta não ousavam fazer qualquer questionamento, objeção ou pergunta incômoda. Era uma reverência submissa. 

     Não que ele estivesse cercado de gente ignorante, seus alunos eram gente simpática, educada, afetuosos. Todos estudavam muito, liam, eram cultos. Mas, em alguns meses de convivência com o pessoal da Montfort, não vi ninguém questionar ou debater criticamente as idéias do professor. Melhor: ninguém questionava a Idéia, a sua teoria sobre a gnose, assunto de sua polêmica-batalha com Olavo de Carvalho.

     Eu sempre tive uma atitude de absoluto respeito pelo professor Orlando Fedeli. Sempre deixei clara minha gratidão pela paciência e generosidade com que me ensinava e respondia às minhas perguntas e questionamentos. E eram tantos, porque eu era uma analfabeta de Deus. Completamente. 

    Além de seu invejável saber, impressionavam também a sua  fidelidade à Igreja, a devoção à Virgem Maria e a dedicação ao ensinamento da doutrina católica . Ele era uma pessoa boa, amava a Deus e  reconhecia, sem falsificações, que  era pecador e precisava da misericórdia divina.
     Mas, Orlando Fedeli, no fundo, talvez fosse vaidoso. Não é à toa que dizem ser a vaidade o pecado humano preferido do diabo. Com todo o respeito, afeto e gratidão que tenho pelo professor, acho que ele não vivia sem aquele apostolado submisso e reverente à sua volta. 

     Eu penso que, assim como o meu brilho intelectual o atraiu e o lisonjeou, por reconhecê-lo como um homem culto, crítico e erudito, foi também isto que o fez sentir-se de alguma forma desconfortável com a minha presença. Afinal, ele tinha em mim alguém que perguntava demais.

     Ironia: de certa forma, o professor Fedeli contribuiu enormemente para a minha descoberta de Olavo de Carvalho. Na época em que eu achei o site da Montfort e conheci Orlando Fedeli, eu já lia Olavo e me maravilhava. Quando o professor Fedeli me apresentou à sua teoria da gnose, ele também me contou que aquele homem a quem eu atribuía idéias sofisticadas, brilhantes, originais, surpreendentes, chamado Olavo de Carvalho, de quem eu não parava de falar, era gnóstico! 

     Interessante é que eu falava com ele sobre coisas de Olavo de Carvalho, que eu tinha lido e gostado, e ele concordava comigo! Mas - o alerta - Olavo de Carvalho é gnóstico, Olavo de Carvalho é maçom! Era sempre o mesmo bordão.

     Ora, se gnose é coisa do diabo, do diabo é preciso distância. Só que eu lia, lia, lia e não descobria onde diabos estava a gnose de Olavo de Carvalho! O que devia ser isto exatamente? eu me perguntava. 

     Então, resolvi fazer a lição de casa: li inteira a polêmica Orlando Fedeli X Olavo de Carvalho. Para ser sincera, na época fiquei (quase) na mesma, eu estava muito aquém daquela discussão. Eu estava engatinhando no catecismo, não ia arbitrar teologia ou filosofia!

     Só tempos depois, quando acumulei mais leituras sobre o assunto, eu pude situar definitivamente a aplicação do conceito de gnose pelo professor Fedeli. E entender que ele queria dar uma seqüencia histórica às idéias gnósticas, que Olavo de Carvalho afirmava não existir. Eu acho que o enfoque de Orlando Fedeli faz sentido apenas quando se toma a gnose como a 'heresia eterna', termo que li num texto do próprio Cardeal Ratzinger.

     (Ironia
: quando eu estava no 'apostolado' de Orlando Fedeli, mesmo sem saber quase nada, eu inclinava-me à idéia de que ele vencera o debate; quando passei para as hostes olavianas, convenci-me de que, ao contrário, Olavo de Carvalho é que saiu-se vencedor. Só agora, ao me afastar do círculo de alunos de Olavo e em face do volume de informações sobre seu passado de tariqueiro, estou me dando conta de que, pelo menos, parte da verdade pode ter voltado a estar com Orlando Fedeli)

     Eu nunca tive qualquer intenção de desafiar, constranger ou fazer-me de sabichona perante Orlando Fedeli. Eu o respeitava muito e sei que ele gostava sinceramente de mim. Tinha admiração por mim, valorizava o meu interesse genuíno em aprender. 

     Mas eu perguntava demais. Vício de ofício: jornalista não sabe as respostas, sabe as perguntas. Até hoje, penso nele, lembro dele e rezo por ele. Quando o professor Orlando Fedeli morreu em 9 de junho de 2010, eu liguei para Ivone, deixei um recado com a empregada de que eu tinha ligado. Quando retornei a ligação (muitas), ela não estava, não podia atender, etc. Desisti de ligar. 


    Escrevi uma comovida carta de pesar pela morte dele e enviei ao site Montfort. Nunca foi publicada. Eu sei que Orlando Fedeli está no céu, esperando para darmos boas risadas. E ainda vou aprender muito com ele. Será sempre meu professor. 


    Que Deus o recompense pelo bem que fez a mim e a tantas almas.

http://blogdemirianmacedo.blogspot.com.br/2011/12/volta-para-casa_8006.html



quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Bento é bendito


      Pergunta a um destes ferozes e convictos ateus, agnósticos, anti-cristãos, esta gente que tem 'religiosidade independente de religiões', geralmente devotos do farsante e picareta Osho, se algum deles já leu um único livro de Joseph Ratzinger, cardeal e papa.

      A ralé, a exemplo de Jean Willys, se soubesse ler, poderia confirmar a grandeza intelectual, a profundidade teológica e a generosidade cristã de uma das cabeças pensantes mais exuberantes que apareceram no planeta nos últimos cem anos: Joseph Ratzinger. 

      A sua obra ultrapassa duzentos livros e ensaios. A aulas magnas de Ratisbona, em 2006, e a da Sorbonne, em 1999; a trilogia sobre Jesus de Nazaré, suas homilias e catequeses às quartas-feiras, na Praça São Pedro, são boas indicações. 

      Que Deus preserve, por muitos anos, para nossso bem e salvação, a saúde do Papa Bento XVI. Ele está velhinho, cansado, mas a luz de Cristo brilha em seus olhos.

http://veritatis.com.br/catecismo/9140-catequeses-de-bento-xvi-sobre-sao-paulo-apostolo

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

"Goodbye, Lancôme".


    E aí, lindinhas que prantearam Oscar Niemeyer, achando o must ele ser comunista? Torcendo para que o capitalismo seja extinto no Brasil também? Ah, bom. Já começou, a Bolívia é amostra. 

    Quando chegar aqui, adeus Lancôme, Louboutin, Sisley, Prada, brut etc. É só esperar. A América inteira vai virar a União das Repúblicas Socialistas da América Latina - URSAL. Está escrito e previsto, Atas do Foro de São paulo estão aí para provar.
   "Bolívia não terá Coca-Cola e McDonald's a partir de dezembro".

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/1129749-bolivia-nao-tera-coca-cola-e-mcdonalds-a-partir-de-dezembro.shtml

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A prova da fome

          O professor Olavo de Carvalho propôs um desafio: perguntar a um esquerdista qual promessa o marxismo em sua aplicação prática (socialismo/comunismo) já realizou. A resposta é 'nenhuma'.

    Agora, pergunte a um cristão quantos milagres Deus já realizou na sua vida.A resposta é "incontáveis". Nós o sabemos como sabemos quando sentimos fome. É experiência direta dos sentidos. 

    Se eu sentir fome, eu não posso prová-lo, mas eu e qualquer um sabemos que ela é verdadeira e existe, porque é experiência comum a todo ser humano. Não é necessário ' prova 'científica'. Ela é impossível. Como provar que eu estou com fome? Mas eu sei. O meu testemunho é prova da verdade.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Feio não é bonito

Centro comercial na Asa Norte em Brasília
Plano Piloto - Fotos de Clara Favilla


      










      

     Há uma maldição que parece pesar sobre as cidades brasileiras: elas são todas horrorosas.Olavo de Carvalho já tratou do assunto com originalidade e conhecimento. São Paulo, um século atrás, era um primor de arquitetura, elegante, refinada, criativa. Tudo foi posto abaixo. 

     Quem não sabe como é seu passado não pode saber o que quer para seu futuro. Qualquer cidade do interior do Brasil não guarda mais a memória de sua arquitetura. Encontrar alguma construção do ínicio do século é loteria. Não se preserva nada e o que substitui o antigo é de uma feiúra atroz. 

     Brasília, à exceção das obras arquitêtônicas de maior destaque, viveu o drama contrário: a maioria das casas e prédios nasceram feios e iguais, o tempo só os piorou, visto que não se pode tocar num tijolo. Nascer e viver cercado de coisas feias danificam a alma para sempre. Olavo de Carvalho escreveu:


     "Os gregos chamavam-no apeirokalia. Quer dizer simplesmente "falta de experiência das coisas mais belas". Sob esse termo, entendia-se que o indivíduo que fosse privado, durante as etapas decisivas de sua formação, de certas experiências interiores que despertassem nele a ânsia do belo, do bem e do verdadeiro, jamais poderia compreender as conversações dos sábios, por mais que se adestrasse nas ciências, nas letras e na retórica. Platão diria que esse homem é o prisioneiro da caverna."

* O titulo foi tomado emprestado de um álbum de Clara Favilla, que remete a um verso de Gianfrancesco Guarnieri, com música de Carlos Lyra)

Fazer o quê?









     Brasília, para mim, é como São Paulo. Quero e não quero. Saí de Brasília há mais de 30 anos, vivi lá até final de 80. Hoje, eu não a conheço mais, voltei lá poucas vezes. Na minhas lembranças de lá, quando a promiscuidade abunda, o chão fica seco e a poeira sobe , eu me lembro do sonho de Dom Bosco, do céu, dos arcos e dos pilotis, dos gramados verdes intermináveis.

     Em São Paulo, quando o trânsito pára e o céu some, eu me lembro do Vale do Anhangabaú, a Avenida Paulista , o MASP, Avenida Europa e Jardins em dia de feriado. Também morei em cidade-satélite, nunca achei que fosse diferente, a não ser por ser mais feia. 

     Mas é claro que uma cidade em que cada um não pode fazer sua casa como quer está fadada a virar o que Brasília virou. Também não tenho a solução. Ela está lá e ainda é bela. O desvio comunista de Oscar Niemeyer não consegui acabar com aquele céu. E suas obras parecem perfeitas para fazer contraste com aquele espetáculo celeste.

Dirceu: mais do mesmo

      
     José Dirceu hoje só sai às ruas protegido por capangas truculentos, tratados eufemisticamente pela imprensa como ''militantes petistas'. Se facilitar, e sair sozinho, lhe jogam tomates e ovos podres. É covarde, não se arriscará. 

     O fanfarrão ZéDirceu posa de herói que arriscou a vida pela democracia, mas voltou de Cuba para viver escondido, com nome falso e operação plástica, debaixo da saia de uma mulher, dona de boutique em Cruzeiro do Oeste, no Paraná, onde - ele mesmo confessa - passava o tempo sentado em mesa de bar, falando de futebol. 

    Quando a maré amansou, abriu o jogo para a mulher, contou que não era quem ele dizia ser, largou-a com um filho pequeno e veio para São Paulo fazer política e criar o PT. 

    Sobre sua prisão pelo regime militar em Ibiúna, na presidência da União Estadual dos Estudantes, José Dirceu não esconde: ele e os outros presos receberam até tratamento de dentes. Não lhes tocaram num fio de cabelo.

Quem perdeu ganhou



        
        Este lero-lero sem fim sobre violação de direitos humanos durante os 'anos de chumbo', que continua a encher o bolso de vigaristas e espertalhões (num escárnio com quem padeceu, de verdade, na tortura) acaba escamoteando um dos maiores erros cometidos pelo regime militar: a perseguição e destruição de lideranças civis, como JK e Carlos Lacerda. 

        E pior: os militares abateram, com mão pesada e excessos inaceitáveis e desnecessários, a esquerda 'carnívora (os que optaram pela luta armada em organizações terroristas de esquerda) enquanto a esquerda 'herbívora' light, mentirosamente 'democrática', ficou livre para tomar conta da imprensa, universidades e os meios de produção cultural.
        
        Eu sou prova: era comunista, e, como tantos outros jornalistas, era regiamente paga por Roberto Marinho, dono das Organizações Globo, que ingenuamente acolhia a comunalha toda do PCB e a instalava nos mais altos postos de direção das suas empresas . É famosa a sua resposta a um general: "Dos meus comunistas cuido eu".

        Sem lideranças civis à altura dos problemas a ser enfrentados, o Brasil, depois da redemocratização, se viu nas mãos dos 'derrotados' pelo regime militar de 64: Ou seja, quem perdeu, ganhou. Empoleirou-se a gang toda no poder, a esquerda  'herbívora' e a 'carnívora'. A laia de Luizinácio, José Dirceu, Marco Aurélio Garcia, Dilma Rousseff, Paulo Vanucchi, José Genoino e que tais, hoje é que manda no País.  Gramsci agradece. 
        

       PS: Pela verdade dos fatos: eu fui ligada ao PC do B (integrei uma celula, em Brasília, da Ação Popular Marxista-Leninista, a mesma que fez a Guerrilha do Araguaia).Esta dissidência era muito mais radical e revolucionária que o 'pecebão', considerado por nós um partido de revisionistas bundões que acreditava na aliança com a burguesia e nas vias burguesas (eleições, por exemplo) para a chegada ao poder. Nós, do PC do B- APML (linha maoísta) não aceitávamos menos que a destruição (física)da burguesia e a instalação da ditadura do proletariado, uma coisa assim como a Albânia.


     À época, a maior ofensa para um militante revolucionário da APML era ser confundido com um 'porco revisionista' do 'pecebão'. Claro que ser PCB ou PCdoB não tinha a menor importância: só mudava (para pior) o grau de estupidez e cretinice. Só ignorantes e/ou gente de má-fé  defenderia os delírios de prepotência e tacanhice dA Classe Operária", um jornalzinho mambembe, mimeografado, órgão oficial do PC do B (deste pecado não preciso de perdão: eu nunca escrevi uma linha, era coisa da 'vanguarda' do partido.)

domingo, 9 de dezembro de 2012

Brasília: ao pó voltarás.


    
Críticos não vão entender jamais o que é Brasília para quem vive(u) nela. Falam que era uma cidade sem gente. E nós, o que éramos? Que parece uma prisão, cheia de gaiolas, sem esquinas. Prisão a céu aberto, e que céu! 

    Hoje, eu concordo que Brasília não funcionou, não poderia funcionar. Oscar Niemeyer criou uma cidade ideal, ela só não poderia existir fora da maquete, habitada por pessoas reais, num país real, onde o tempo passa e o que é moderno fica velho. 

   Paris tem 1500 anos, e continua lá. Michelangelo, em sua época, não era moderno. Era eterno. Basta ver o documentário "Why beauty matters" para entender e concordar: Brasília, só pulverizando.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Marxistas, os idiotas úteis



http://www.youtube.com/watch?v=95H1wqh96Ts

A caminho da ditadura


      Os trouxas que aplaudem a idéia não perdem por esperar. A ditadura a ser implantada não vai poupá-los; ao contrário, serão triturados. Mas a ignorância é o que os impede de enxergar longe.
O desertor da KGB, Yuri Bezmenov, explicou tudo em detalhes. Mas a lavagem cerebral funciona, ninguém consegue acreditar no que ele diz.

Resolução do Diretório Nacional do PT defende regulamentação da mídia

Partido afirma ser necessário ampliar os 'espaços de debate, de informação e de circulação de ideias'

07 de dezembro de 2012 | 18h 54
Ricardo Brito, de O Estado de S. Paulo
Uma resolução divulgada na tarde desta sexta-feira,7, pelo Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) defende a regulamentação dos meios de comunicação no País. Segundo o documento de cinco páginas, destinado a comentar o resultado das eleições do partido, é preciso ampliar os "espaços de debate, de informação e de circulação de ideias", o que é "fundamental para o combate aos preconceitos e às manipulações ideológicas, culturais e religiosas".
"Eles continuam a marcar presença na cena política brasileira e são instrumentalizados pela direita e pela mídia conservadora, que vão se tornando, cada vez mais, uma simbiose obscurantista", afirma. A cúpula do PT saúda na resolução a vitória do partido nas eleições municipais, mesmo diante do que consideraram como uma "feroz campanha" movida pela oposição de direita e por seus aliados na mídia que tinha como objetivo "criminalizar" a legenda.
A legenda diz ter alcançado, ao final do primeiro turno das eleições municipais, como o partido mais votado do País, 17,2 milhões de votos. Destacou também ter tido o "maior número de votos de legenda e que obteve as maiores votações relativas para jovens e mulheres".
No segundo turno, de acordo com o documento, a vitória eleitoral do ex-ministro Fernando Haddad para a capital paulista - o "principal reduto tucano e dos grandes grupos que se opõem ao nosso projeto nacional - ressaltou ainda mais o desempenho do primeiro turno". "A voz do povo nas urnas suplantou, mais uma vez, os que vaticinavam o desaparecimento do Partido dos Trabalhadores!", destaca.
Apesar dos protestos públicos de dirigentes do PT, o documento não menciona o julgamento do mensalão. Em meados de novembro, a Executiva do partido criticou o que considera a "partidarização" do Supremo Tribunal Federal (STF), que ficou "evidente" na análise do processo, que condenou à prisão três ex-dirigentes da cúpula partidária: o ex-ministro José Dirceu, o ex-presidente do partido José Genoino e o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares.
O partido reconhece que avançou menos do que podia nas eleições, enquanto a "direita recuou" "menos do que mereceria". Segundo a resolução, a campanha contra o PT "prossegue, fora do parlamento e do processo eleitoral, que estimula o preconceito contra a política e cujo conteúdo, guardadas as diferenças históricas, se assemelha ao conhecido golpismo udenista".

http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,resolucao-do-diretorio-nacional-do-pt-defende-regulamentacao-da-midia,970686,0.htm

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Brasília, o que foi feito de ti?


    Capital da Esperança, Brasília era linda, só não podia envelhecer. Na década de 70, na frescor de seus  quinze anos, a cidade transpirava graça e beleza: a tinta nova dos prédios e casas, o gramado estendendo-se como tapetes bem cuidados por quilômetros na cidade, as superquadras floridas e arborizadas, sem guaritas nem portarias, os (poucos) carros, o trânsito ameno, a imensidão da Esplanada, os edifícios e palácios de Oscar Niemeyer que pareciam flutuar, as estruturas de concreto sem mofo nem bolor, tudo isto, fazendo contraste com o mais belo céu e por-do-sol do planeta, encantava o coração e fazia esquecer suas mazelas. 

   Brasília foi construída na linha reta do horizonte, nada limitava nosso olhos. Cidade sem gente? E nós, éramos o quê? Caminhar por passagens subterrâneas? Que bobagem. A idéia de prédios de seis andares, sobre pilotis, era para preservar a visão do céu e das estrelas e permitir que todo mundo - qualquer cidadão - andasse por dentro das quadras, sem necessidade de se desviar. Não havia cerca, muro, nada. Os prédios não tinham sequer porteiro. O acesso aos apartamentos era feito por uma por
ta de vidro e um hall de elevador. 

   Em Brasília, costumávamos andar pelos gramados do Plano-Piloto à noite, à luz da lua, sem perigo, sem sobressalto. Brasília era a única cidade onde não era proibido pisar na grama. Quem tinha nascido lá, ou viera muito jovem para Brasília, não se acostumava com as outras cidades, tão convencionais e velhas. 

   Vivi em Brasília de 64 a 80, dos 11 aos 27 anos. Minha adolescência e juventude. Como toda (c)idade, tinha suas dores e alegrias. Hoje, mais de 30 anos depois que eu saí de lá, não reconheço mais Brasília. 

    Concordo com uma amiga , Ana Prudente, que escreveu: "Brasília pretendia ser uma coisa e, então, deu tudo errado e ela se transformou em algo inominável". Vendo a cidade como ela é hoje, comentei no álbum de fotografias de Brasília, feitas por Clara Favilla, uma querida amiga que ainda mora lá:

   "Ao assistir ao documentário 'Why beauty matters', produzido pela BBC e apresentado pelo filósofo Roger Scruton, lembrei-me imediatamente de Brasília e sua arquitetura. Não resisti: a cidade parece destinada à implosão. Vendo tuas fotos sobre estas quadras brazilienses, constato um fato inescapável:

 " Nosso mundo virou as costas para a beleza. Não somente a arte fez um culto à feiúra, como a arquitetura tornou-se sem alma e estéril. Não foi somente nosso entorno que tornou-se feio. Nossa linguagem, música e maneiras se tornaram mais rudes, ofensivas, como se a beleza e o bom-gosto não tivessem lugar em nossas vidas." Roger Scruton diz tudo.


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Babel na visão marxista da Teologia da Libertação I


BABEL E ABRAÃO DOIS PROJETOS ANTAGÔNICOS.
Gênesis 11,1-9 E 12,1-9 

Autor: Pe. Cláudio Dalbon (ligado à Teologia da Libertação)


1 – Introdução
Os dois textos apresentam, até na forma literária, dois paradigmas de sociedades antagônicas, como grandezas equivalentes e opostas em sua dinamicidade. Com Babel estamos na última etapa do mundo mítico das origens e tudo é descrito em forma impessoal e globalizada, com o simbolismo da ideologia da língua e da cultura única e envolvente no empreendimento da construção da cidade e da torre.

Com Abraão entramos no terreno da história do povo: os personagens têm nomes concretos e significativos e sua experiência é geograficamente bem definida e situada numa caminhada que tem um significado teológico importante na revelação bíblica.

O projeto de Babel é realizado pelos “filhos da humanidade” que usam a mesma linguagem, querem chegar até Deus para perpetuar o seu próprio nome, constroem a cidade e a torre realizando a engenharia de seu próprio orgulho.

Com Abraão é Javé que entra na história da humanidade, não para confundir, mas para chamar a sair da cidade e voltar à terra. O projeto de Javé se manifesta no chamado de Abraão a sair da cidade e ir em busca novamente da terra: “é à tua descendência que darei esta terra”. Terra da bênção, para construir um povo e receber o engrandecimento do nome da parte de Deus.

2 – Tradução dos textos do original hebraico
Gênesis 11,1-9: Toda terra (’erets) era uma única língua e palavras únicas. Vindo do Oriente em seu peregrinar, encontraram uma planície na terra (’erets) de Sinear (na região de Babilônia), onde se estabeleceram. E disseram cada um ao companheiro: “Vem! Fabriquemos tijolos e vamos cozê-los ao fogo”. E ficaram com tijolo em vez de pedra e betume (piche) em vez de argamassa. Em seguida disseram: “Vamos edificar para nós uma cidade e uma torre, cuja cabeça penetre nos céus. E façamos para nós um nome para que não sejamos dispersos sobre a face de toda a terra (’erets).”

E Javé desceu para ver a cidade e a torre que os filhos dos humanos (da humanidade) tinham edificado. E Javé disse: “Veja! Um único povo e uma única língua para todos eles. E este é o início do seu empreendimento e agora não será impossível para eles que tudo o que planejam possa ser realizado. Vamos, desçamos e confundamos (misturemos) sua linguagem a fim de que um homem não compreenda a língua do seu vizinho”. Assim Javé os dispersou daquele lugar sobre a face de toda a terra (’erets). Eles pararam de edificar a cidade. Este lugar foi chamado de Babel, porque aí Javé confundiu a linguagem de toda terra (’erets), e os dispersou daquele lugar sobre a face de toda a terra (’erets).

Gênesis 12,1-9: “Javé disse a Abraão: “Quanto a ti, sai da tua terra (’erets) e da tua família e da casa de teu pai para a terra (’erets) que eu te mostrarei. E farei de ti um povo grande e te abençoarei e engrandecerei teu nome e serás uma bênção. E abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem e em ti serão abençoados todos os clãs da terra (’adamah).

E Abraão saiu como lhe tinha falado Javé e saiu com ele Ló, e Abraão tinha 75 anos quando saiu de Harã. E Abraão tomou sua mulher Sarai e Ló, filho do seu irmão, e todos os seus bens que tinham adquirido e a gente que tinham adquirido em Harã e saíram rumo à terra (’erets) de Canaã e chegaram à terra (’erets) de Canaã. Abraão viajou na terra (’erets) até o lugar santo de Siquem, até o Carvalho de Moré. Naquele tempo os cananeus habitavam a terra (’erets).

Apareceu Javé a Abraão e disse: “À tua descendência darei esta terra (’erets)”. E Abrãao edificou um altar a Javé que lhe tinha aparecido. E daí continuou até o monte a oriente de Betel e armou a sua tenda tendo Betel a oeste e Hai a leste. E edificou aí um altar a Javé e invocou o nome de Javé. E partiu Abraão para ir e seguir até o Negueb.

3 – Elementos de crítica textual e de composição literária
3.1 “‘erets ‘terra’ é o quarto substantivo mais usado no AT, aparecendo 2.504 vezes no hebraico e 22 vezes no aramaico” (veja o Dicionário Internacional de Teologia do AT, editado por R. Laird Harris, Gleason L. Archer e Bruce K. Waltke, Edições Vida Nova, São Paulo, 1988, nas p. 124/125).

Confrontando os dois textos percebemos que o substantivo ‘erets ocorre 6 vezes no texto de Babel e 7 vezes no texto de Abraão, com estas diferenças: em Gn 11,1-9 temos uma única vez o substantivo ’erets sem o adjetivo de totalidade (toda a terra), exatamente no v. 2 quando se designa o lugar geográfico em que foi construída a cidade e a torre: na planície de Sinear, “termo usado para designar o sul da Mesopotâmia, a planície de aluvião entre os rios Eufrates e Tigre... Posteriormente passou a ser chamada Babilônia” (Dicionário, p. 1595).

Nas outras 5 vezes o termo ‘erets é precedido pela especificação da totalidade – toda a terra, o mundo todo. Em Gn 12,1-9 temos 7 vezes o uso do termo ’erets e uma vez o termo ’adamah, ou seja, terra cultivada. Abraão é convidado a sair de sua terra, para uma outra terra indicada por Javé como sendo a terra de Canaã, pois naqueles tempos os cananeus habitavam esta terra. “Esta terra”, conclui Javé, “darei à tua descendência.”

3.2 Os dois quadros bíblicos acima colocados são ligados entre si pela genealogia de Sem até Abraão, passando por Arfaxad, Salé, Heber, Reu, Sarug, Nacor e Taré, pai de Abraão, de Nacor e de Arã em Ur dos caldeus. Com a morte de Arã em Ur, Taré tomou Abraão e Sarai, mulher de Abraão, com o neto Ló, filho do falecido Arã e os fez sair de Ur dos caldeus em direção à terra de Canaã. Chegando em Harã se estabeleceram nesta cidade onde Taré morreu. A partir deste momento da morte do pai, Javé entra na vida de Abraão, para o conduzir no caminho da aliança com a promessa de descendência e de terra.

A genealogia de Sem em Gn 11,10-32 retoma e desenvolve a genealogia de Noé em Gn 10,1-32. Neste ponto temos a impressão de que o quadro de Babel é um parêntese inserido posteriormente no bloco literário das origens, cuja finalidade, além de encerrar os mitos originais, é de servir de contraste com a maneira de Javé entrar na história da humanidade e realizar o projeto da salvação: com os impérios globalizantes, Javé age confundindo, a salvação está na confusão; com Abraão a salvação está na vocação.

3.3 A universalidade geográfica do quadro de Babel nos faz lembrar das grandezas dos impérios. A expressão “toda a terra” recorre 5 vezes. O sujeito da torre de Babel quase não aparece no texto: os verbos estão acéfalos, somente no v. 5 se diz que estes que edificaram a cidade e a torre são “os filhos de Adão” – os humanos. Quem os identifica é o próprio Javé que desce para ver o que está acontecendo.

Os diálogos são apresentados como ordens indiscutíveis de uma programação fixa e peremptória.(Vem – fabriquemos – vamos edificar – façamos para nós...). Estas ordens são apresentadas num dinamismo desenvolvimentista e num crescendo de intensidade ideológica.

A primeira ação é a adoção de uma nova tecnologia de fabricação: tijolos no lugar de pedras e betume/piche no lugar de argamassa.

O segundo empreendimento é a construção de uma cidade e uma torre cujo topo penetre os céus.

Em terceiro lugar a finalidade de toda esta obra e nova tecnologia é “engrandecer o próprio nome”. Construir um nome para não ser dispersos sobre a face de toda a terra. A união que impede o dispersar-se é finalizada ao engrandecimento do nome.

A finalidade de construir cidade e torre e engrandecer o nome é para não permitir que o império construído por esses empreendimentos quebre, se despedace e o pessoal se disperse: é preciso construir e manter a globalização.

3.4 Enquanto os homens querem conquistar o céu, construindo um império com cidade e torre e manter-se unidos nesta globalização, a partir de Gn 11,5 se descreve a ação de Javé que desce do céu à terra e examina a ação/construção/império dos humanos. Javé reconhece a força aglutinadora da ideologia imperial. Teme que este início leve os homens a realizar tudo o que planejam na linha da globalização e intervém confundindo a linguagem e dispersando.

O verbo explicativo de todo o quadro usado pelo autor do texto é o termo hebraico balal (misturar, confundir, ou dar provisão, providenciar). Por causa desta ação divina, que interrompe a globalização do império, o lugar da cidade e da torre que os humanos deixaram de terminar foi chamado Babel.

A intervenção de Javé é descrita como ação de confundir a globalização, confundir exatamente para providenciar uma nova experiência humana. Babel é geograficamente ligada à planície de Sinear.

Sinear ocorre várias vezes no AT.

“Em Gn 10,10 se diz que Ninrode, o grande tirano e fundador de império, deu início a seu reino em Babel, Ereque, Acade e Calné na terra de Sinear. A partir daí foi avançando para o norte, na direção da Assíria. Foi ali em Sinear que também a humanidade rebelde construiu a bem-conhecida torre de Babel, num direto desafio a Deus (Gn 11,2). Em Dn 1,2 vemos que Nabucodonosor leva os utensílios do templo de Deus para a terra de Sinear, e em Is. 11,11 se conta que Sinear é uma das terras de onde o Israel reajuntado voltará, na época do estabelecimento da era milenar.

Em Zc 5,11 a mulher no alqueire (no efa), representando o acúmulo do mal (v. 8), é retirada para a terra de Sinear, onde é erigido um templo para ela. Tudo isto aponta para um significado sinistro de Sinear, mostrando que esta região onde foi construída a cidade e a torre de Babel é o principal centro de desenvolvimento de uma cultura e de uma civilização alicerçadas sobre uma religião falsa, rebelde, contra o Deus verdadeiro e a sua palavra revelada, é o berço da tirania imperial; são inimigos do povo, em suma, são o símbolo da impiedade” (Dicionário, p. 1595).

Abraão em Gn 14 é chamado a guerrear contra os reis assaltantes, para libertar o primo Ló que tinha sido seqüestrado, juntamente com o rei de Sodoma: entre os reis seqüestradores é nomeado Anrafel, rei de Sinear (Gn 14,1.9).

Desta forma na Bíblia a crítica ao império babilônico como símbolo de todo império globalizante, fica bastante evidente e significativa. A crítica é encabeçada pelo próprio Javé com a torre de Babel logo antes do início da história da salvação com Abraão. Os povos são chamados a se desenvolverem na dispersão, depois da aliança com Noé (Gn 10,18.32); e no caso de Abraão a migração da cidade para a terra prometida constitui a vocação especial do patriarca do povo da parte de Javé.

3.5 Insistindo na seqüência literária da genealogia de Noé, entre Gn 10,32 (“estes foram os clãs dos descendentes de Noé, segundo suas linhagens e segundo suas nações. Foi a partir deles que os povos se dispersaram sobre a terra depois do dilúvio” – Portanto, há dispersão tanto após o dilúvio, como depois de Babel) e Gn 11,10 insere-se o episódio da torre de Babel, confusão das línguas e dispersão. Em Gn 11,10 se retoma a genealogia de Noé com a descendência de Sem, para chegar até Abraão em Harã. Podemos concluir que o projeto de Babel é um projeto mítico. É impessoal. É baseado na língua única e em palavras únicas, enfatizando a unicidade da ideologia assegurada pelo único instrumento de comunicação.

É preciso que Javé intervenha, descendo profeticamente e confundindo essa linguagem mítica da globalização imperial. A intervenção de Javé que desce e confunde o mito de Babel se realiza historicamente no chamado de Abraão a migrar para carregar a bênção divina e tornar possível uma nova experiência de humanidade e formar o verdadeiro povo de Deus. Nesta trajetória da busca da terra com mulher estéril, sobrinhos órfãos agregados ao clã, os poucos pertences, o grupo de Abraão passa pelo deserto da resistência, pela alternativa de caminhos e de projetos que não são controlados pelo sistema globalizante.

4 – A vocação de Abraão
Gn 12,1-9 é chave de leitura fundamental do javista. O javista apresenta nela, com convicção, a proposta do tribalismo de Israel.

4.1 Javé chama Abraão a sair, a realizar o êxodo, a deixar sua família, em busca de outra terra. Os construtores de Babel queriam engrandecer seu próprio nome. Javé vai tornar famoso o nome de Abraão fazendo com que ele mesmo se torne uma bênção para o povo. Em Abraão serão abençoadas todas as famílias, ou melhor, todas as mishpahot ‘adamah, todas as “associações protetoras” dos clãs agrários.

A bênção de Abraão tem endereço certo: a mishpaha como organização solidária dos clãs transforma os mesmos numa rede de participação social e comunitária, em forma alternativa com respeito às cidades.

4.2 Gn 12,4-9 descreve a trajetória do clã patriarcal desde Harã até Canaã. Na terra dos cananeus Abraão visita os lugares sagrados dos santuários do tribalismo israelita: Siquém, onde Josué vai realizar a assembléia constituinte do povo de Deus (Js 24), a montanha de Betel, onde Jacó fez o sonho e foi abençoado por Deus que mudou seu nome para Israel (Gn 28,10-22; 35,1-15). Por fim, no lugar de construir uma torre, construiu um altar e invocou o nome de Javé; no lugar de construir uma cidade, migrou de acampamento em acampamento, vivendo como migrante até o Negueb: Abraão é conhecido como o patriarca do sul que vive como vivem os nômades do deserto.

Nesta trajetória da cidade para a montanha até o deserto, o patriarca Abraão vive sua vocação e missão: este peregrinar é orientado pelo Espírito e pelo projeto do êxodo, em oposição ao projeto dos filhos da humanidade que constroem Babel.

4.3 Vamos nos deter um pouco sobre a busca da terra como proposta de Deus a Abraão. O solene juramento de Javé, depois que ordenou ao patriarca sair de sua família e da cidade de Harã, ao chegar à terra de Canaã, é assim expresso em Gn 12,7: “darei esta terra à tua descendência”. Pode-se supor que Abraão ainda não estava preparado pessoalmente para possuir a terra das mãos de Deus. Ele podia organizar um projeto alternativo de poder para competir com os cananeus. O projeto idealizado por Javé é um projeto antagônico ao projeto de Babel, e não competitivo com o mesmo.

Por isso Deus entregará a terra aos descendentes de Abraão quando estes souberem viver numa sociedade alternativa e antagônica à sociedade dos cananeus, numa sociedade tribal, justa e igualitária, contra toda exclusão, depois que, vivendo a aliança, Abrão (= pai alto) tiver se tornado Abraão (= pai dos povos, Gn 17,4-8) e depois que Sarai (= minha princesa) tiver se tornado Sara (= simplesmente princesa, Gn 17,15-22), sem ser propriedade do homem, capaz então de gerar o filho da promessa.

O projeto de Deus não é um simples projeto alternativo que entra em competição com o projeto de Babel. A confusão de Babel provocada por Deus não é uma arma para derrubar o adversário. A confusão divina em Babel tem a finalidade de interromper a construção da cidade e da torre a fim de que outro projeto alternativo e antagônico seja possível. Deus confunde para providenciar a realização de um outro projeto com a vocação de Abraão.

Em Dt. 8, um poema que canta a beleza da terra prometida, encontramos a intencionalidade de Deus em dar essa terra onde corre leite e mel aos descendentes de Abraão. Javé doa a terra depois de conhecer as intenções deste povo através das provas do deserto. É preciso passar pela prova da fome e do maná para saber que o homem não vive somente de pão, mas de tudo aquilo que sai da boca de Javé. O deserto é indispensável para vencer a tentação de Babel na busca da terra prometida:

“não aconteça que seu coração fique cheio de orgulho, e você se esqueça de Javé seu Deus, que o tirou do Egito, da casa da escravidão... Não vá pensar portanto: Foi a minha força e o poder de minhas mãos que me conquistaram essas riquezas. Lembre-se de Javé seu Deus, pois é Ele quem... lhe dá força para se enriquecer, mantendo a aliança que jurou a seus antepassados, como hoje se vê. Todavia se você esquecer completamente Javé, seu Deus, vocês morrerão” (Dt 8,17-19).

A memória antagônica a Babel, nestes versículos, é mais do que clara. O projeto de Babel é um projeto globalizado que leva para a morte. Deus desce e confunde para inserir na história humana um projeto de salvação e de vida encabeçado por Abraão, que tem como realização da aliança a entrega da terra: nesta terra da promessa é possível se enriquecer mantendo a aliança com Javé. Mas este projeto é alternativo e antagônico a Babel.

4.4 Citamos do livro A narrativa do céu (Edições Paulinas, v. 1) de Gianfranco Ravasi, nas p. 28-29, quando fala de “geografia mística”:

“Detenhamos este eco que continua nas páginas bíblicas, e que gira em torno de uma palavra hebraica muito cara à Bíblia, ’erets, terra, ou seja, a terra por definição. Trata-se de uma modesta região de cerca de 25.000 km2, pouco menor que a Sicília, dividida em três zonas de norte a sul: a fértil Galiléia, a árida Samaria, a montanhosa e desértica Judéia...

Essa diminuta faixa de terra é prenhe de infinitos significados e valores simbólicos. É o objeto da promessa divina feita a Abraão, Isaac e Jacó, promessa realizada com o Êxodo do Egito. É, portanto, dom, compromisso, sinal, razão pela qual a topografia bíblica ultrapassa os limites em poesia, a física em ideal, como aparece no confronto de um território árido e inóspito, como é a Palestina, com este ‘hino da terra prometida’, da ’erets apresentada no livro do Deuteronômio: ’erets fértil, ’erets cheia de ribeirões de água e de fontes profundas que jorram no vale e na montanha; ’erets de trigo e cevada, de vinhas, figueiras e romãzeiras; ’erets de oliveiras, de azeite e de mel; ’erets onde você comerá pão sem escassez, pois nela nada lhe faltará; ’erets cujas pedras são de ferro e de cujas montanhas você extrairá o cobre “(Dt 8,7-9). O versículo seguinte conclui-se introduzindo, pela sétima vez, o termo ‘erets: ‘Quando você comer e ficar satisfeito, bendiga a Javé seu Deus pela boa ‘erets que lhe deu’ (Dt 8,10). Um setenário elogioso que transfigura aquele território que geograficamente, a partir dos romanos, será justamente chamado Palestina, isto é, Filistéia, por causa do nome de uma população de origem européia (talvez helênico-cretense) que dará muito trabalho a Israel.

A ’erets representa, portanto, um símbolo; tanto é verdade que Jeremias a interpelará como se fosse uma pessoa: ‘’erets, ’erets, ’erets! Escute a palavra do Senhor!’ (Jr 22,29). E lentamente ela se transformará em imagem da terra perfeita, recriada por Deus para os justos: ‘Quem é abençoado por Deus possuirá a ’erets... Os justos possuirão a ’erets e a habitarão para sempre’ (Sl 37,22.29). Palavras que Jesus retomará em seu Sermão da Montanha: ‘Bem-aventurados os mansos (os despossuídos), porque herdarão a terra!’ (Mt 5,5). Uma terra na qual a justiça triunfará, uma terra ‘cumulada pela sabedoria do Senhor, como as águas recobrem a extensão do mar’ (Is 11,9).

O contraste entre o território árido e inóspito como é em grande parte a Palestina, e a terra de Deus fértil e espaçosa, cheia de ribeirões e de fontes... terra onde corre leite e mel, este contraste é para evidenciar a mudança de projeto que Javé exige numa participação alternativa do povo de Deus que vive a aliança em forma antagônica a Babel.

Insistimos neste aspecto porque o antagonismo do projeto alternativo de Deus com respeito a Babel exige saída, migração, deserto (mudança de coração) para usar a terra como dom de Deus, em forma oposta ao uso que o império faz dela.

Os 40 anos de deserto, a própria sorte de Moisés que, após ter liderado a caminhada da libertação pelo deserto, foi impedido de entrar nela, pelo desgaste da liderança, sendo assim enterrado no monte Nebo... Tudo isto explica que o surgimento da sociedade alternativa querida por Deus é uma empresa de tempos longos, é um treinamento constante de lideranças alternativas, um fermentar contínuo do coração com a semente e a memória do projeto de Deus, sem deixar-nos distrair pelas ideologias globalizantes.

Nós que sonhamos esta utopia de Deus na história teremos que aceitar a sorte de Moisés de ver a terra prometida sem entrar nela, mas sentindo no coração que esta é a terra de Deus, o sonho de Deus para a humanidade, e renovando continuamente a esperança para que o povo continue a caminhada na certeza de poder partilhar a vida, a terra, os bens na dignidade e na paz, sem excluir ninguém.

Como profetas temos que manter viva esta utopia e despertar lideranças abraâmicas na massa dos excluídos, especialmente neste tempo de globalização e de fim da história.