quinta-feira, 7 de agosto de 2014

OdeC, 'bispo' Macedo e a salvação das malas

          Hoje, Olavo de Carvalho xinga Edir Macedo, mas nem sempre foi assim. O livro O Jardim das Aflições o prova. As pesadas malas embarcadas no heliporto do Templo de Salomão nos trazem à memória trechos daquele livro, publicado em 1995, em que Olavo de Carvalho empenha veementes palavras na defesa do 'bispo' Macedo. É bom lembrar que, já naquele tempo, ninguém em sã consciência podia achar que  Edir Macedo fosse verdadeiro pastor de almas. Ele era o que sempre foi: pastor de malas. 

        A propósito: ex-alunos e pessoas diversas que conviveram com OdeC na década de 90 revelam que, nesta época, ele era assíduo  frequentador de igrejas neopentecostais, em companhia da mulher e da sogra.  Os três 'devotos' iam à Igreja Universal do Reino de Deus e àquela de R.R. Soares, dono da Igreja da Graça e ex-cunhado de Edir Macedo.  

      Segundo alguns de seus ex-discípulos, era comum o Guru da Virginia elogiar e indicar o Curso de Fé de R.R. Soares, por ele considerado o melhor que já tinha visto. Alguns olavetes chegaram a fazer o curso por indicação do mestre. 

     Outra 'lojinha da fé' muito apreciada e frequentada por Olavo de Carvalho era a Igreja Renascer, do 'apóstolo' Estevão Rodrigues e da Bispa Sonia. Conta-se que OdeC teria mesmo se oferecido para dar um testemunho público, mas foi recusado, não se sabe porque. No tempo em que frequentava estas igrejas, o filósofo fazia durante seus cursos entusiasmada propaganda da 'teologia da prosperidade', ressaltando que os efeitos materiais das 'doações' ofertadas eram realmente magníficos e colhidos já nesta vida. Quem diria!  
    
    (Na verdade, não surpreende. Deve ter sido ali que o guru apurou as técnicas de ganhar dinheiro fácil, convencendo com sua lábia crédulos e incautos do custo-benefício de suas iniciativas. Basta conferir, agora o dindim é para formar dez 'lideranças' conservadoras, num curso de longo prazo, mínimo de 10 anos, a dois mil dólares per capita/mês. Cerca de duzentos e cinquenta mil dólares por ano, nada mal. Olavo já deu o sinal verde para que os devotos comecem a agir. Malandramente, ele diz ele que, de onde está, não dá para pedir a grana ele mesmo. Como se hoje distância física impedisse qualquer contato. Fosse assim, ele não teria mais de dois mil alunos num curso online de filosofia. PS: a trinta dólares a mensalidade, são sessenta mil dólares por mês só com o COF, fora os cursos avulsos, a vendagem de livros, as doações... Olavo de Carvalho fatura alto nos Estados Unidos).
     
     Voltando à esfera das 'oportunidades espirituais' experimentadas por Olavo décadas atrás, chama a atenção o depoimento de uma pessoa de integridade, sinceridade e seriedade inquestionáveis, que conheceu e conviveu com o guru durante anos. 
      
     Diz ela: "Quando eu o conheci ele se dizia protestante e ex-muçulmano. Olavo de Carvalho se definiu como protestante, justificando que o era porque a esposa o era, e que ele chegara à conclusão (guénoniana...) de que deveria seguir uma tradição (ou, antes, Tradição) da sua cultura, tendo assim abandonado o islamismo. Eu me lembro que respondi que protestantismo não é tradição, é inventado na hora. Ele ficou sem resposta." Ora, vejam, 'abandonado o islamismo'...

     Também em Curitiba, onde OdeC morou antes de ir para EUA, em 2005, era comum vê-lo em templos protestantes e não era por falta de igrejas católicas. São todos relatos confiáveis. 


 
(Não é interessante o fato de Olavo de Carvalho nunca frequentar igreja protestante tradicional, daquelas antigas? Por que? Será que ele é um sujeito que não pode receber a visita de pastores destas igrejas? Com aquele seu cigarro compulsivo, com seus linguajar chulo e conversas profanas, vai ver ele não seria bem visto por denominações mais sérias. Daí, sobra só igreja de picaretas, como a de Edir Macedo, Bispa Sonia e R.R. Soares. Um gambá cheira outro)

     O trecho d'O Jardim das Aflições é este: "Um sinal é a reportagem de "Veja" sobre o pastor protestante Caio Fabio, que abençoado por Betinho por suas ligações com a esquerda, mereceu ser rotulado, na capa, como "O Bom Pastor", para contrastá-lo, num esquematismo aterrador e insano, com o "Mau Pastor": o bispo Edir Macedo". 

    "Mau por quê? Pelo pecado de ter sido absolvido nos processos que adversários lhe moveram? Por suas convicções políticas e sua amizade com o pensador direitista Jorge Boaventura? Por recolher contribuições de seus fiéis em vez de pedir dinheiro ao governo? Porque os ritos espetaculosos de sua igreja -- tradicionais no protestantismo desde pelo menos John Wesley, e não muito diversos dos "shows" de pregadores católicos na Idade Média -- ofendem a delicada sensibilidade estética de seus críticos? Ou, enfim, porque suas campanhas beneficentes, sem o mínimo apoio oficial, vêm arriscando desbancar o improvisado monopólio esquerdista da caridade?"
(O. de CARVALHO, "O Jardim das Aflições", 1a ed., Rio de Janeiro, 1995. pp. 379-80, nota 243).

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Recordar é viver: e a maçonaria, Olavo de Carvalho?

     Mírian Macedo: "Citando René Guénon, o senhor defendeu a união da maçonaria com o cristianismo. E pode?!"
            Olavo de Carvalho: "Parece que houve aí uma divisão de trabalho: a maçonaria ficou com os Pequenos Mistérios e a Igreja com os Grandes Mistérios. Não é preciso dizer que este simples fato é causa de inumeráveis desequilíbrios. Enquanto estas duas ordens de conhecimento não forem de novo articuladas, a unidade espiritual do Ocidente não será reconquistada."

          Íntegra da resposta de Olavo de Carvalho*: "Este problema que você coloca é dos mais cabeludos. Eu dificilmente poderia explicá-lo aqui. Mas é preciso considerar que a maçonaria tal como a conhecemos hoje se origina no século XVIII, a partir da unificação de antigas iniciações de ofícios, sobretudo dos construtores medievais que, durante mil anos, tinha funcionado perfeitamente bem dentro do contexto cristão sem nenhum problema.

     A encrenca começa a partir do momento em que, dentro da própria maçonaria, começam a surgir outras sociedades, estas sim verdadeiramente secretas, que se apossam de áreas inteiras com o objetivo de transformar a maçonaria em instrumento da revolução.
     
     Isto é muito bem explicado num livro já clássico, de um mestre maçom chamado John Robinson, intitulado Proof of Conspiracy. O livro saiu no começo da história republicana aqui nos Estados Unidos.
     
     Evidentemente, foi bastante lido pelos maçons da época, inclusive o presidente George Washington, que, vendo a penetração destas idéias revolucionárias na maçonaria, confirmou que aquilo existia e disse: "Eu espero que isto não se propague aqui nos Estados Unidos (pois isto estava acontecendo na Europa, principalmente na França).
      
      Quando se fala de maçonaria, não se pode falar  de um negócio assim em  bloco, porque existem camadas e camadas de complexidade aí. Mas, em todo caso, o fato da maçonaria originar-se nestas comunidades de ofício mostra que ela não tem originariamente uma inspiração anti-cristã.
      
      Por outro lado, estas comunidades legaram à maçonaria inumeráveis conhecimentos, sobretudo sobre a constituição da ordem política, da ordem do Estado. E estes conhecimentos são realmente  importantes para a administração do mundo. 

      Como havia aquela distinção dos Pequenos Mistérios e Grandes Mistérios (Pequenos Mistérios são aqueles que se referem aos conhecimentos de ordem cosmológica, ordem do mundo, constituição do mundo, inclusive do mundo histórico, social, político; e por outro lado, os Grandes Mistérios, que se referem à ordem puramente espiritual, da imortalidade da alma, Deus  etc), parece que houve aí uma divisão de trabalho: a maçonaria ficou com os Pequenos Mistérios e a Igreja com os Grandes Mistérios. 

      Não é preciso dizer que este simples fato é causa de inumeráveis desequilíbrios. Enquanto estas duas ordens de conhecimento não forem de novo articuladas, a unidade espiritual do Ocidente não será reconquistada. 

      Pior ainda: à medida que o tempo passa, aparecem sociedades secretas dentro de sociedades secretas, conspirações dentro de conspirações, tornando tudo uma bagunça monumental. 


     É evidente que as conspirações existem, mas também é tolo imaginar, como faz este senhor Armindo Abreu, que certas sociedades secretas são controladoras do mundo.
Ninguém controla o mundo, o pessoal disputa poder e faz confusão.

     
      Pior ainda, quando os elementos causadores de uma situação contêm um forte elemento secreto, é muito difícil entender até historicamente o que aconteceu. A história do mundo, além de tornar-se extremamente violenta, ainda tem a questão de que ninguém sabe quem fez o quê. A prevalência do segredo como elemento histórico importante é um dado do século XX."

*PS: . Olavo de Carvalho respondeu às minhas perguntas no dia 12/02/2007  (a resposta está no link, a partir de 13 min20seg até 20min36seg. O email (abaixo) foi enviado ao programa True Outspeak. http://www.olavodecarvalho.org/midia/070212true.html



 "Professor Olavo, como vai?
     
     Sou Mírian Macedo, de São Paulo. Tenho acompanhado a sua participação no podcast de Yuri Vieira e ouvido seu programa de rádio True Outspeak. Brilhantes, parabéns. Eles têm sido muito esclarecedores para mim, mas, por outro lado, também me confundiram, principalmente no que se refere à união da maçonaria com o cristianismo. E pode?!

      A propósito: não entendo de profundidades filosóficas, sou só uma esforçada e curiosa ex-jornalista e rainha do lar que tem o vício de gostar de assuntos de que nada entende e que são, em geral, difíceis e complicados. Fazer o quê?

     Na conversa com Yuri, o senhor, citando René Guenón, defendeu a união da maçonaria com o cristianismo como única saída para o furdunço em que está transformado o mundo. O professor falou em maçonaria anti-cristã e maçonaria pró-cristã. O que seria uma e outra? 

     E esta última é um clube de bondades e bons propósitos, uma entidade de princípios éticos, dedicada ao culto da fraternidade, respeitosa de todas as religiões e do Deus de cada uma? E como fica a encíclica Humanus Genus e o documento que a ratifica, escrita pelo cardeal Ratzinger em 83?

     Outra coisa: falar em mistérios, mesmo que sejam pequenos mistérios, não é contrariar o próprio Senhor Jesus Cristo, que mandou gritar sobre os telhados o que se ouvisse na surdina, garantindo que nada havia para ser ocultado?

     A tese de que todas as religiões (inclusive o cristianismo) têm sua gnose é cara a muitos estudiosos do assunto, como é o caso do romeno Mircea Eliade. Ele cita, em defesa de sua idéia, o Evangelho de Mateus, as obras de Orígenes e Clemente de Alexandria e a carta aos Efésios, de São Paulo. 

      Segundo ele, a hierarquia eclesiástica da Igreja dos primeiros tempos combateu a gnose e o esoterismo pelo temor de que certos gnósticos pudessem introduzir no cristianimso doutrinas e práticas radicalmente opostas ao éthos do Evangelho. Eliade afirma:

      - Não era o " esoterismo" e a "gnose" como tais que se revelaram perigosos, mas as "heresias" que se infiltravam sob o manto do "segredo iniciatório".

       Vale lembrar: Eliade faz a ressalva de que, no caso do cristianismo, a existência de um ensinamento esotérico praticado por Jesus e continuado pelos seus discípulos é negada pelos Padres da Igreja e historiadores antigos e modernos.

       E, de volta à questão: não é heresia negar as próprias palavras de Jesus Cristo de que não existe nada secreto?

        Um abraço.

        Mírian Macedo




São Paulo,capital

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Orlando Fedeli: o primeiro email


Muito prezada Mirian,
salve Maria!
    Li sua carta entre lágrimas.
     Como Deus é bom! E como Ele escreve direito em linhas tortas!
    Quão admirável é a sua misericórdia que nos prura mesmo nos abismos, e nos leva pela mão entre abismos e penhascos, no meio das sombras da morte.
    Lembro-me de uma frase de Deus a um profeta, falando-lhe de Israel:
   
"Porque eu sou o Senhor teu Deusque te tomo pela mão e te digoNão temas, eu sou o que te ajuda." (Is 41,13 )
    Lendo sua tão comovente e tão sincera "A volta para Casa", pensei como Deus a conduziu pela mão e como pode bem ter-lhe dito: "Como me esquecerei de ti, Mirian? Eu sou teu Deus que te tomo pela mão e te conduzo." Dou, pois graças a Deus -- entre lágrimas -- pela beleza da ação de Deus em sua vida.
    Agradeço-lhe suas palavras bondosas relativas à minha pessoa. Só temo você estar equivocada e eu não poder ajudá-la, tanto quanto eu quereria, no que você necessita. 
    "Mais.. ce que j´ai , je vous le donne".

    Eu lhe ofereço minhas orações e minha admiração, por ver em sua vida e em sua volta para casa uma ação clara da misericórdia divina.
    Gostaria de publicar sua carta no site Montfort, porque ela seria uma grande e bela labareda, que bem poderia iluminar outras almas, assim como outras cartas a incentivaram e iluminaram sua alma.
    E gostaria tanto de conhecê-la pessoalmente! 
    Gostaria tanto de, um dia, comungar a seu lado. Como se fosse uma minha irmã. Como você é minha irmã na Igreja Católica, minha irmã que voltou para a casa.
    Para casa... 
In corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli  
PS. Quando, depois de terminar esta minha pobre resposta à sua carta de tanto valor, fui ver a data em que você a escreveu. Foi no dia de Santa Teresa, no dia do professor. Que bom presente, você deu a um velho professor. Que Deus a recompense, e que Santa Teresa sempre esteja como um anjo a seu lado. OF 

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Orlando Fedeli e eu


       Quando, no final de 2004/início de 2005, a empulhação marxista começou a ficar nítida e a transcendência voltava a fazer sentido, eu fui atrás de qualquer informação que me apontasse para Deus. Eu estava tateando à procura do caminho de volta para a Casa do Pai.
      
     Eu não erraria se dissesse que eu encontrei o caminho, no dia 2 de abril de 2005, ainda que não me desse conta inteiramente do que estava acontecendo comigo. Quando eu ouvi o anúncio da morte do Papa João Paulo II, naquele 2 de abril, eu disse, chorando, ao meu marido:"Este homem está há 25 anos tomando conta de nós".

     Dizem que as coisas não acontecem assim (acontecem assim, sim) mas naquele dia 
algo profundo aconteceu. Foi, ali, o "instante" da conversão. Hoje, eu costumo dizer que eu sou o último milagre de João Paulo II, eu tenho certeza de que ele rezou por mim. 
      
      Um mês depois da morte do papa, em maio, numa destas buscas pela internet, acabei caindo no site da Montfort, do professor Orlando Fedeli. Gostei. Era uma coisa totalmente oposta à igreja modernosa e horrorosa dos padres-vedetes e das missas cheias de graça. Entrei e fui devorando o que encontrava. Li tudo.

      Em outubro de 2005, já radicalmente de volta à fé da Igreja, reconciliada com Deus e santificada pelos sacramentos da confissão e Eucaristia, eu resolvi escrever um relato da minha conversão, a que dei o título "A Volta para Casa" * e, como não tinha nem blog para publicar, resolvi mandar para o site da Montfort. Não cogitei que fosse ser publicado.   

      Para minha surpresa, o próprio professor Orlando ligou para a minha casa, chorando, comovido com o meu relato, querendo minha permissão para publicar a carta. Eu mal acreditei. Fiquei lisonjeada.

      Começamos a trocar emails e, em fevereiro de 2006, ele veio até a minha casa com a sua esposa, Ivone, para que nos conhecéssemos. Ivone é uma mulher admirável, estudiosa, muito culta, preparada, e que tratava o professor com doçura, respeito e firmeza. Nos tornamos grandes amigos. 

      Como meus filhos não eram batizados, ele se ofereceu para ensinar-lhes o catecismo e, durante seis meses, ele veio toda quarta-feira à tarde para as aulas de religião. E conversávamos muito, eu o  ouvia falar com prazer. Aprendi muito com o professor. 
   
      O professor sabia tudo da história da Igreja e da doutrina católica. Ele tinha um memória prodigiosa e era uma das pessoas mais divertidas com quem se podia conviver. E se doava com uma generosidade rara.
      
      Em maio daquele ano, eu completaria 25 anos de casamento e decidi me casar no religioso, eu era casada apenas no civil. Foi uma cerimônia singela, mas comovente. Convidei o professor Fedeli e Ivone para serem meus padrinhos. O coral de música sacra da Associação Montfort cantou na cerimônia, foi muito bonito. Entrei na igreja com meu filho, ao som de "Jesus, alegria dos homens".

      A minha convivência com os Fedeli e o pessoal da Montfort   era cordial e prazeirosa, eu ia aos domingos assistir à missa em latim,  na paróquia São Carlos Borromeu, na Moóca (onde o professor morava) e participava dos excelentes cursos e palestras  promovidos pela Montfort, sempre ligados ao cristianismo,  Igreja, cultura do período conhecido como 'cristandade, arte sacra,  Idade Média, doutrina católica. 

      Depois dos cursos, os alunos e participantes costumavam se reunir em animados e divertidos almoços em trattorias paulistanas. Era um ambiente e clima muito acolhedores, de conversa elevada, pessoas educadas e elegantes. Eu adorava.
          

      Eu era tratada com muita deferência, tanto pelo próprio Orlando Fedeli quanto pelo pessoal que fazia parte, vamos dizer assim, de seu apostolado, o pessoal da Associação Montfort. Todos demonstravam sinceramente admiração pela forma honesta com que eu relatei a minha conversão, pela minha adesão ao grupo, sem arrogância elitista ou pedantismo intelectual e, não raro, ouvi confissões, verdadeiras, de pessoas que disseram-me ter se convertido depois de ler meu testemunho no site da Montfort. Todo mundo conhecia e se referia à "jornalista que escreveu A Volta para Casa"

      Mas, a certa altura, sem que eu pudesse imaginar, as coisas sairam do eixo e o rompimento - inevitável - aconteceu. É que, apesar de tratar o professor Fedeli com absoluta reverência e respeito, eu comecei a fazer questionamentos sobre certos 'dogmas' fedelianos. A sua obsessão pela gnose o fazia ver heresias gnósticas em toda a parte, em qualquer coisa. Eu não sabia quase nada, mas sempre queria saber 'por que', 'como', o quê... 


     Nunca houve, contudo, qualquer desentendimento sério ou conversa ríspida entre nós. Até que, certo dia, ele me telefonou, dizendo que nós precisávamos conversar sobre um email que eu lhe enviara. Nele, eu me referia a um texto do então cardeal Joseph Ratzinger sobre protestantismo, que a mim parecia uma análise mais correta do que a de um aluno seu, que escrevera um artigo sobre Lutero no site da Montfort. No email, eu dizia:

     
     "Professor Orlando, lendo a análise de Marcos Libório sobre "Os três princípios protestantes", lembrei-me de um texto escrito pelo cardeal Ratzinger, em 1986 - http://www.ratzinger.it/modules.php?name=News&file=article&sid=216 - em que ele fala do protestantismo numa perspectiva diametralmente oposta à do texto publicado no site da Montfort. 

    "Para Ratzinger, o protestantismo é cristianismo e é a partir do que ele tem em comum com o catolicismo - e tem muito - que deve se dar o diálogo com vista à unidade dos cristãos. Quando li este texto, achei-o muito rico e pensei mostrá-lo e discutí-lo com o senhor. Por qualquer motivo, acabei esquecendo."
     
     "Este tipo de análise feita por Marcos Libório não faz muito sentido para mim. Dizer que todos os protestantes do mundo são, velada ou abertamente, adoradores do demônio e que servem à Satanás é evidentemente um absurdo. É uma idéia que, na minha opinião, não se sustenta nem teológica nem doutrinariamente." 

    "Pode existir - e existem - adoradores do diabo em todo lugar; agora, dizer que a doutrina protestante é pura gnose - aquela mesma, explicada em termos bem simples - é uma  simplificação. Com o tipo de argumentação e raciocínio utilizados, Libório prova  que até rótulo de xampu é gnóstico."

     "Non sono intenditore, o que li sobre doutrina católica e o protestantismo não me habilita a desafios intelectuais maiores. Mas, pelo pouco que compreendi, fico com a análise apresentada pelo cardeal Ratzinger. O que o senhor acha?"


             Na verdade, o professor Orlando Fedeli não queria conversar, ele queria que eu aceitasse, sem discutir, o seu ponto de vista, o mesmo defendido por Marcos Libório no artigo: os protestantes são todos hereges satânicos a caminho do inferno. 

     Quanto à posição de Raztinger centrada na crença em Cristo como plataforma comum inicial para o diálogo com os protestantes, o professor Fedeli insistiu que Joseph Ratzinger tinha mudado de opinião e não pensava mais como no artigo por mim citado (I progressi dell'ecumenismo/86). 

     O professor Orlando sabia que isto não era verdade. Eu lhe recordei que o Papa Ratzinger tinha reafirmado, palavra por palavra, o artigo de 86, num encontro com protestantes na Alemanha, durante a XX Jornada Mundial da Juventude, em 2005. Nem assim, ele admitiu seu equívoco. 

     Quanto aos comentários à enciclica Gaudium et Spes, que Ratzinger qualificou como 'uma espécie de Antisyllabus', observei que eles eram de 85, portanto, anteriores ao artigo citado. (Fedeli tinha feito referência a isto na conversa)

     Como o professor Fedeli tinha uma memória prodigiosa para fatos e datas, cometer aqueles 'erros' eram, na verdade, um 'excesso de zelo' pelo que o professor Orlando considerava a verdadeira ortodoxia católica.  Ele como que ficou cego de amor a Deus

     A conversa desandou quando eu lhe perguntei: "Onde é que o senhor acha que Buda está?" Ele disse " Isto eu não vou lhe responder". E encerrou a conversa dizendo que, se eu não aceitava o que ele tinha me ensinado, deveríamos parar por ali. Respondi: "Reze por mim". Foi a última vez que conversamos.
   
     Eu fiquei muito triste com o afastamento, foi abrupto, rápido, sem motivo. Hoje, eu vejo que eu não cabia no seu grupo, eu não poderia fazer parte de seu apostolado. As pessoas à sua volta não ousavam fazer qualquer questionamento, objeção ou pergunta incômoda. Era uma reverência submissa. 

     Não que ele estivesse cercado de gente ignorante, seus alunos eram gente simpática, educada, afetuosos. Todos estudavam muito, liam, eram cultos. Mas, em alguns meses de convivência com o pessoal da Montfort, não vi ninguém questionar ou debater criticamente as idéias do professor. Melhor: ninguém questionava a Idéia, a sua teoria sobre a gnose, assunto de sua polêmica-batalha com Olavo de Carvalho.

     Eu sempre tive uma atitude de absoluto respeito pelo professor Orlando Fedeli. Sempre deixei clara minha gratidão pela paciência e generosidade com que me ensinava e respondia às minhas perguntas e questionamentos. E eram tantos, porque eu era uma analfabeta de Deus. Completamente. 

    Além de seu invejável saber, impressionavam também a sua  fidelidade à Igreja, a devoção à Virgem Maria e a dedicação ao ensinamento da doutrina católica . Ele era uma pessoa boa, amava a Deus e  reconhecia, sem falsificações, que  era pecador e precisava da misericórdia divina.
     Mas, Orlando Fedeli, no fundo, talvez fosse vaidoso. Não é à toa que dizem ser a vaidade o pecado humano preferido do diabo. Com todo o respeito, afeto e gratidão que tenho pelo professor, acho que ele não vivia sem aquele apostolado submisso e reverente à sua volta. 

     Eu penso que, assim como o meu brilho intelectual o atraiu e o lisonjeou, por reconhecê-lo como um homem culto, crítico e erudito, foi também isto que o fez sentir-se de alguma forma desconfortável com a minha presença. Afinal, ele tinha em mim alguém que perguntava demais.

     Ironia: de certa forma, o professor Fedeli contribuiu enormemente para a minha descoberta de Olavo de Carvalho. Na época em que eu achei o site da Montfort e conheci Orlando Fedeli, eu já lia Olavo e me maravilhava. Quando o professor Fedeli me apresentou à sua teoria da gnose, ele também me contou que aquele homem a quem eu atribuía idéias sofisticadas, brilhantes, originais, surpreendentes, chamado Olavo de Carvalho, de quem eu não parava de falar, era gnóstico! 

     Interessante é que eu falava com ele sobre coisas de Olavo de Carvalho, que eu tinha lido e gostado, e ele concordava comigo! Mas - o alerta - Olavo de Carvalho é gnóstico, Olavo de Carvalho é maçom! Era sempre o mesmo bordão.

     Ora, se gnose é coisa do diabo, do diabo é preciso distância. Só que eu lia, lia, lia e não descobria onde diabos estava a gnose de Olavo de Carvalho! O que devia ser isto exatamente? eu me perguntava. 

     Então, resolvi fazer a lição de casa: li inteira a polêmica Orlando Fedeli X Olavo de Carvalho. Para ser sincera, na época fiquei (quase) na mesma, eu estava muito aquém daquela discussão. Eu estava engatinhando no catecismo, não ia arbitrar teologia ou filosofia!

     Só tempos depois, quando acumulei mais leituras sobre o assunto, eu pude situar definitivamente a aplicação do conceito de gnose pelo professor Fedeli. E entender que ele queria dar uma seqüencia histórica às idéias gnósticas, que Olavo de Carvalho afirmava não existir. Eu acho que o enfoque de Orlando Fedeli faz sentido apenas quando se toma a gnose como a 'heresia eterna', termo que li num texto do próprio Cardeal Ratzinger.

     (Ironia
: quando eu estava no 'apostolado' de Orlando Fedeli, mesmo sem saber quase nada, eu inclinava-me à idéia de que ele vencera o debate; quando passei para as hostes olavianas, convenci-me de que, ao contrário, Olavo de Carvalho é que saiu-se vencedor. Só agora, ao me afastar do círculo de alunos de Olavo e em face do volume de informações sobre seu passado de tariqueiro, estou me dando conta de que, pelo menos, parte da verdade pode ter voltado a estar com Orlando Fedeli)

     Eu nunca tive qualquer intenção de desafiar, constranger ou fazer-me de sabichona perante Orlando Fedeli. Eu o respeitava muito e sei que ele gostava sinceramente de mim. Tinha admiração por mim, valorizava o meu interesse genuíno em aprender. 

     Mas eu perguntava demais. Vício de ofício: jornalista não sabe as respostas, sabe as perguntas. Até hoje, penso nele, lembro dele e rezo por ele. Quando o professor Orlando Fedeli morreu em 9 de junho de 2010, eu liguei para Ivone, deixei um recado com a empregada de que eu tinha ligado. Quando retornei a ligação (muitas), ela não estava, não podia atender, etc. Desisti de ligar. 


    Escrevi uma comovida carta de pesar pela morte dele e enviei ao site Montfort. Nunca foi publicada. Eu sei que Orlando Fedeli está no céu, esperando para darmos boas risadas. E ainda vou aprender muito com ele. Será sempre meu professor. 


    Que Deus o recompense pelo bem que fez a mim e a tantas almas.

http://blogdemirianmacedo.blogspot.com.br/2011/12/volta-para-casa_8006.html



quinta-feira, 26 de julho de 2012

P(O)ETISMO

          Não foi só Maria Bethania que descobriu o filão poético-petista para abocanhar "o meu, o seu, o nosso dinheiro".  O jornalista e poeta Luis Turiba também levou uma grana do MinC, em 2007, para escrever o ainda inédito livro-poema 'meiaoito'. É ler para crer.
     
     Assessor de imprensa de Gilberto Gil no Ministério da Cultura, Turiba foi um dos dez vencedores da cobiçada Bolsa Funarte de Estímulo à Criação Literária, que teve mais de 500 participantes. Apesar do grande número de inscritos e dos poucos jurados (apenas cinco) incumbidos de ler os projetos para a escolha dos vencedores, o nome dos eleitos foi surpreendentemente anunciado dois(sic) dias depois do fim das inscrições. 
    
     Os prejudicados puseram a boca no trombone, denunciando a mutreta, Turiba foi citado nominalmente como um dos favorecidos pela farsa montada no MinC/Funarte. Mas não adiantou. *(1)
    
     O poema-título meiaoito - uma mixórdia indigente de clichês e vulgaridades que parece não ter fim -faz referência à militância revolucionária contra a ditadura que o autor afirma ter tido. 
   
      A julgar pela Bolsa Literária da Funarte, o autodenominado  poeta, jornalista, compositor, sambista e agente cultural não estava fazendo revolução, mas aquele investimento a que se referiu Millôr ao falar das 'vantagens e indenizações' aos perseguidos pelo regime militar.
   
     Turiba, que define Gil como 'pensador e filósofo', publicou um livro com discursos do ministro-cantor e editou dois DVDs: Gil na ONU e Programa Mundial da Capoeira.
   
     A consistência intelectual e a técnica poética de Luis Turiba estão à altura das profundezas filosóficas de Gilberto Gil.
Axé!

*(1):(ler aqui:
https://museudelrey.wordpress.com/2007/12/23/os-herois-do-funartegate-e-muito-mais/)

http://blogdoturiba.blogspot.com/ (este é o blog dopoeta)

meiaoito

68 razões de 68
luis turiba

“aonde andará a alquímica Beta?
em que planeta?em que molécula?
em que circuito de espreita?
em que centro de inteligência?
perdi sua órbita na poeira do tempo
mas não esqueço sua luz, sorriso de menina”
ua babuluna ual bãambum
a língua rock sacode o corpo
let´s twist again
festivais da Record bolinam a massa
CPC da UNE faz realismo engajado
prenuncia-se meiaoito
sexta sangrenta
furo juvenil
chapa quente nas refregas
aquela cabeça brasileira
tinha dois chafarizes de sangue
esguiçando morte como lavas
de um vulcão em erupção
o corpo trimilicava no chão
se sacudindo como tapete roto
no asfalto quente, uma da tarde
corríamos ruidosos por encarar
bombas tiros algemas
dos meganhas do Dops
e dos choques da PM
cantávamos palavras-de-ordem
com a força máxima das entranhas
como se fora o último e único desejo
de nossa jovem existência
cada carro incendiado
um gol comemorado
nunca soubemos-saberemos
quem era aquele
transeunte moreno alto
terno e gravata
tombado como jaca madura
no quintal anônimo
Manchete:
PM TEVE CABEÇA ESMAGADA
POR MÁQUINA DE ESCREVER
polícia procura responsável pela
chuva letrada na Avenida Rio Branco
coitos interruptos
saques no escuro
sabres desembanhados
cavalos na catedral
estilingues tinindo
escancaramento das consciências
ausência de medos & responsas
êxtases & demências
miserere nóbis & ho chin min
elvis & samba de raiz
che & wanderléia
guerilheiros de teses e tesões
arqueiras de flechas incendiárias
companheiras & companheiros
contra a ditadura
a fúria flácidas
de tênis e jeans quetais
braços acima das metáforas
peitos arfados de argonautas
táticas de silêncios e canções
deus nos liderava até nos fragmentos
mas o diabo tacava fogo no nosso rabo
todos os sonhos ativados
táticas lançadas ao redemoinho
fogueiras das vadias ilusões
tudo a girar a girar a girar:
rodas circulares
sputiniks bêbados
cães espiões e tantos senões
no parque juvenil
da doença infantil do esquerdismo
o som dos beatles na vitrola
satisfaction no beco da garrafa
tropicália & zicartola
mutantes & bob dylan
baseados & coquetéis molotovs
tom jobim versus Vandré
sim! tudo tudo tudo vai dar pé
hormônios em erupção
espermatozóides alcoólicos
a beira de um ataque histérico
e os cabelos a crescer
mais que os pentelhos
em torno daqueles pintos desgovernados
não bastava a só liberdade
nem o sol da América do Sul
não bastava só bastar
experimentar para provar
as barreiras do impossível
as fronteiras do improvável
as estações do comunismo
a revolução permanente
entre a esquerda festiva
e a militância ideogrâmica
entre o sexo cuba libre
e o grosso calibre do sem nexo
entre o ato institucional nº 5
e o circo da avenida central
entre o palco da peça teatral
e o tal poste da esquina
onde queimamos a bandeira ianque
com o fogo de nossos ideais
nas reuniões da revolucão
a internacional comunista anunciava:
em paris é proibido proibir
no rio, um rio leva nossas vidas
meiaoito, ano multiúnico
mutilador de calendário
valeu enquanto pulsou
impulsos anti-fuso horário
jardim de pedras e flores
avenida de pontos e pontes
passeatas de 100 mil amores
grande árvore da história
antes durante e avante
quem lá esteve ali se eternizou
aquela flor oiticica
desabrochou pra guerra
sem brochadas típicas
não vingou nem foi vítima
do eco que a fez frondosa
meiaoitista, eis aqui a vida
que trocamos pelos livros das escolas
ah!
meu primeiro grito pós-parto
meu primeiro jato de esperma
minha primeira cabeça raspada
feita e encaminhada ao universo
minha primeira pedra atirada
rumo às trevas por amor ao ardor do combate
meu primeiro era um garoto
que amava os beatles e os rolling stones à Vera
ela é minha menina eu sou o menino dela
minha primeira passeata-enterro
o cadáver ainda quente do secundarista Édson Luís
nosso estandarte dialético
meu primeiro almoço no Calabouço
onde calouro olhei a boca daquela moça
meu primeiro hino de guerra: ABAIXO A DITADURA
FORA O IMPERIALISMO
O POVO ARMADO
DERRUBA A DITADURA
ABAIXO O IMPERIA……
SHE LOVES YOU YÊ-YÊ-YÊ
meu primeiro jaleco manchado
de graxa sangue sonhos e gasolina
de artefatos explosivos
meu primeiro vietnam interno
contra a mecânica do curso técnico
minha primeira massa de manobra perigosa
minha primeira mesada ao partido comunista
minha primeira cabrocha da mangueira
meu primeiro tesão de gafieira
minha primeira nossa senhora da guerrilha
minha primeira cigarrilha
meu primeiro filme de Godard
na sessão de meia noite na Cine Paissandu – La Chinoise
minha primeira foice martelo guitarra e tamborim
meu primeiro artigo pseudocientífico
mostrando que homossexualismo era doença
de menino criado por vó
meu primeiro pileque homeripiscodélico
com cachaça de ebó pra exu na base da JEC do Grajaú
meu primeiro jornal Classe Operária
nas mãos de um pequeno burguês
fumando Continental sem filtro
minha opção pela luta armada
depois de um beijo na namorada
meu primeiro ponto secreto no Cine Roxy
Ave Nossa Senhora de Copacabana
minha primeira reunião da AMES
Pedro II, João Alfredo e André Maurois
minha primeira vontade de beijar um homem
meu primeiro pangrafismo planfletário
meu primeiro esquema de segurança
minha primeira iniciação lisérgica
pós leitura do Pasquim, na Banda de Ipanema,
prédios crescem, ganham vida partem pra cima
corro como quem corre da polícia
rumo às dunas da Gal
meu primeiro coquetel molotov
minha primeira batida de bafo de onça
minha primeira Internacional Comunista
minha primeira panfletagem relâmpago
meu primeiro uivo lunático
meu primeiro livrinho vermelho
do camarada Mao Tsé Tung
com seus ditames solucionáticos
minhas primeira masturbação cósmica
em memória das pernas brancas
de Brigite Bardot
meu primeiro baile de formatura
onde amei loucamente a namoradinha
de um amigo meu e ele nem percebeu
meu ensaio na Portela
Ilu Aiê Ilu Aiê Odora,
negro cantava na nação nagô
minha primeira aula de marxismo
leninismo-stalinismo-maoismo
tudo em ritmo de samba enredo
meu primeiro Tom & Vinícius
por que tu me chegaste
sem me dizer que vinhas
minhas primeiras bolinhas de gude mortíferas
usadas contra a cavalaria que invadiu
a catedral da Candelária
meu primeiro Chicou ou Caetano?
meu primeiro não, talvez meu primeiro chifre
ela declarou recentemente
que ao meu lado não tem mais prazer
minha primeira Elisabeta Bonante
deportada para a Itália após ser presa
na Escola Técnica de Química por ter feito
propaganha revolucionária na fábrica de tecidos
Nova América no operário bairro de Del Castilho
meu primeiro soneto da infidelidade
minha primeira dor de amor
minha primeira vaia de zumbido
meu primeiro aplauso de dedos
meu primeiros segredos de aparelhos
minha primeira cisma revolucionária
meu primeiro pau-de-arara imaginário
minha primeira Sílvia Kozinski,
musa beiçuda da saia curta
meus primeiros amigos que piraram
outros mais tarde chafurdaram-se
como porcos indefesos da chacina
da letal brancura ilusória da cocaína
minha primeira Albânia
o farol vermelho do camarada Ever Hodja
minha primeira Batmacumba iê iê
com Gil Mutantes e meninas bancando strep-teases
meu primeiro camarada preso morto na tortura
Joel Moreno deixava o morro do Borel
com um pacote de Classe Operária
consta ter sido incinerado no forno do Doi-Cod
minha primeira tomada do histórico prédio Capenama
minha primeira passeata dos 100 mil
minha primeira noite de amor livre
no apartamento de Romero Lascas
quando descobri que ainda não
sabia trepar com maestria
minha primeira porrada ginasiana
Pedro II Colégio Militar Ferreira Viana
minha primeira parada de sucesso no rádio
Disparada, A banda, Alegria Alegria, Obladi Obladá,
Eu quero é botar meu bloco na rua, A mão que
toca um violão, Já vem chegando a madrugada,
O meu canudo de papel, Para bailar la bamba,
Se for preciso faço a guerra,
Eu quero é que vá tudo pro inferno,
Por que não? Por que não?
meu primeiro treino de guerrilha
quando tive de dar uma de médico
na prainha Recreio dos Bandeirantes
quando o camarada Lucimar
apagou n´água após ataque epilético
meu primeiro desvio ideológico
por causa dos bilu-bilus
das trotkistas da Libilu
minha primeira Pantera Negra
meu primeiro Trini Lopes no bonde Lins de Vasconcelos
minha primeira olhada maliciosa para os joelhos da Nara Leão
meu primeiro papai comunista me empresta o carro
meu primeiro baseado nas imediações do Salgueiro
oferecido por um camarada da Ala Vermelha
meu primeiro Reis do Iê Iê Iê
meu eterno tio João Metalúrgico do Partidão
minha primeira senha insana:
- o elefante está latindo?
- não. a nuvem perdeu o trem…
minha eterna amiga Márcia de Almeida faz finanças no teatro Opinião, rouba livros teóricos pra vender pra burguesia,
resiste na Faculdade de Medicina
foge da prisão no campo do Botafogo
meu primeiro Vladimir Palmeira pendurado num poste
naquele delicioso aparece-some some-aparece
meus primeiros ílíderes
Travassos Franklim, Ceará, Brito, Jean Marques
a quem obedecíamos com centralismo democráticos
meus primeiros Janú e Marcos Igual
que mais tarde formariam o Comando Vermelho
com presos comuns na Ilha Grande
meu primeiro samba-enredo na Mangueira
o mundo encantado que Monteiro Lobato criou ô ô ô ô
minha primeira reunião da Ubes, em Teresópolis,
onde o conhaque fez a diferença
meu primeiro sabiá no maracanãzinho
pra não dizer que não falei de flores
em terra de carcará
meu primeiro aparelho de fuga
o apartamento das tias Alda e Gesilda em Copa
onde olhava mulher nua pela janela
e encontrava com Carlos Marighella
meu primeiro AI-5
fim da inocência
expulso da escola agora é a guerra popular de Lin Piao
cercar as cidades pelo campo
no imaginário Exercito Popular Revolucionário
meu primeiro hino anarquista
avante popochê
facchemu greve
viva lenine
morra kruchev
la media noche
céu estrelado
el santo papa
será enforcado
meu primeiro reveillon trêbado
misturado com velas flores garrafas de champanhe
e despachos de macumba
nas festas de Iemanjá da praia do Leblon
meu primeiro 69"


http://bit.ly/gmkTAT (Luis Turiba fala sobre o poemameiaoito)