sábado, 22 de fevereiro de 2014

Brasília, a cidade comunista ideal*

          Comunista gosta é de emprego público. Em Brasília,,na época da ditadura, era comum ver jornalistas de esquerda, socialistas convictos, revolucionários de alto coturno, se locupletarem com prebendas e mamatas nos gabinetes de parlamentares, em órgãos de assessoria no Congresso, nos ministérios na Esplanada e numa infinidade de repartições e órgãos públicos da cidade.

          O filé mignon eram os empregos n
os escritórios dos governos estaduais, de preferência nos da Arena, o partido dos generais ditadores.


       Na maioria dos vezes, os 'coleguinhas' (como jornalistas  referem-se  a si próprios)  só tinham o trabalho de ir buscar o dinheiro no fim do mês. Noutros casos, como os empregões, por indicação, nos Serviços de Comunicação da Câmara e Senado, o sortudo trabalhava, se tanto,  duas horas por dia.  

     O 'árduo' trabalho podia ser, por exemplo, fazer o resumo do 'pinga-fogo - o Pequeno Expediente, que é parte da sessão diária da Câmara em que deputados fazem pequenas notificações. Coisas assim, deste grau de dificuldade e especialização.
      

      As tarefas eram, geralmente, executadas durante o horário de trabalho do jornalista que fazia simultaneamente cobertura do Congresso para algum jornal, rádio ou TV. Muitos deles hoje vivem folgadamente com polpudas aposentadorias amealhadas com este tipo de 'trabalho'. 
     
      Eu posso contar. No início de 1977, uma amiga jornalista deu-me a notícia: um amigo comum (alto assessor do Ministério da Justiça e professor influente da Universidade de Brasília) tinha arrumado - sem eu pedir - um emprego para mim no Departamento de Direito da UnB. Cargo de 'supervisor B 1'. Eu não tinha idéia do que fosse. 
     
      Bastava levar os documentos, a carteira profissional, a contratação era imediata. O salário era igual ao que eu recebia como repórter do jornal O Globo, que pagava muito bem. De um dia para o outro, eu tinha dobrado o meu salário, isto é que era boa notícia.
     
        Mas a coisa era ainda melhor do que parecia. Não tinha ninguém para controlar a minha freqüencia. Eu deveria aparecer lá no departamento pela manhã, sentar numa escrivaninha, e sei lá, organizar um armário ou separar papéis em pastas. 

      Eu não sabia sequer distinguir entre redação técnica de um ofício e um requerimento. Não sabia nem mesmo datilografar, repórter, em geral, é 'catilógrafo'. Eu sou.
    
       A verdade é que aquilo era 'emprego', não era trabalho. No primeiro mês, eu ainda fiz jogo de cena. Depois, comecei a aparecer por lá cada vez menos. Quando eu aparecia, não tinha o que fazer. 

       Pior era ter que acordar cedo, o expediente, em tese, era pela manhã. Ora, toda noite, depois do jornal, eu ia para festas, gostava de dançar, adorava a noite. Eu pensava: 'é bom, mas não presta'.
    
       A gota d'água e a desculpa que eu precisava para cair fora foi ouvir certo dia, o 'direitista' Paes Landim, que dirigia o Departamento de Direito e era amigo do reitor da UnB, o capitão de mar-e-guerra, José Carlos de Almeida Azevedo, dizer a um grupo de pessoas, referindo-se a mim: "Esta é gente nossa". Eu, uma comunista, de esquerda, que era contra a ditadura?! Era demais.
   
       Não durou dois meses, larguei o emprego. Nem o terceiro salário eu fui buscar. Até hoje, tenho a anotação na carteira de trabalho, sem baixa. Certamente, meus amigos não aprovariam eu ter largado a 'boca', nem entenderiam eu ter aberto mão daquela grana. Ora, que eu não fosse trabalhar. Era só ir buscar o dinheiro no fim do mês, eu não era a única que faria isto. Eu, hem? Caí fora.
   
        (Dá outro post contar a farra de jornalistas com viagens e hospedagem em hotéis de luxo, às custas da cota de passagens de parlamentares (de novo, da Arena, de preferência) e mordomias de órgãos e governos estaduais. Eu mesma passei um feriado de rainha em Olinda e Recife, nos 'anos de chumbo' (sic))    
     
        Se era assim na época da ditadura, imagina o que aconteceu depois: todos os cargos nos serviços de comunicação social, assessoria de imprensa e relações públicas do Executivo, Legislativo, Judiciário, ministérios e autarquias foram ocupados 'pelas vítimas dos anos de chumbo'.
     

         Isto é o que Millor quis dizer com a frase "Eles não estavam fazendo revolução, estavam fazendo investimento". Isto não é sobrevivência, é vidão. Todos nós sabemos quanto ganham os coleguinhas na Câmara e Senado e adjacências. Tudo gente de esquerda.

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